Holanda escolhe nixos para ampliar a soberania digital do governo

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Holanda escolhe NixOS para avançar na soberania digital do governo

O governo holandês está desenvolvendo um ambiente digital de trabalho baseado em tecnologias abertas para diminuir a dependência de fornecedores comerciais. Batizada de DAWO – sigla em neerlandês para Ambiente de Trabalho Digital Autônomo do Governo -, a iniciativa reúne diferentes ferramentas e serviços, em vez de se limitar à criação de um único produto.

A proposta contempla um sistema operacional para computadores, recursos de nuvem, comunicação, inteligência artificial e colaboração. A ideia é construir uma estrutura modular, cujos componentes possam ser substituídos sem que toda a plataforma precise ser refeita. Com isso, órgãos públicos teriam mais liberdade para escolher e administrar as tecnologias utilizadas.

O projeto ainda está em fase inicial, mas já conta com testes-piloto em pequena escala. Em julho, o comitê interdepartamental ICBR formalizou a iniciativa e encarregou três prestadores públicos de tecnologia de desenvolver um ambiente de trabalho padronizado e com maior autonomia: DICTU, SSC-ICT e a área de TI da DUO, agência que executa políticas educacionais.

A coordenação da arquitetura mais ampla está a cargo do Ministério do Interior e das Relações do Reino, conhecido como BZK. Entre as frentes está o MijnBureau, conjunto de ferramentas de produtividade hospedado pelo próprio governo e formado a partir de projetos como Nextcloud, Collabora, Element e OpenProject.

O MijnBureau também busca compatibilidade com iniciativas europeias de software aberto. Seus desenvolvedores trabalham em contato com o projeto francês La Suite e pretendem aproximar a plataforma do openDesk, ambiente de produtividade criado na Alemanha. O openDesk também aparece em projetos do estado alemão de Mecklenburg-Vorpommern e em iniciativas suíças.

A busca por alternativas tecnológicas ganhou força em diferentes países europeus. Um exemplo é o Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia, que adotou o openDesk após os Estados Unidos imporem sanções a altos funcionários da instituição. Esse episódio está entre os fatores que ampliaram a atenção holandesa à autonomia digital.

No país, quatro municípios participavam dos testes em abril, segundo informações divulgadas pela Associação de Municípios Holandeses. O número depois subiu para oito, ainda uma parcela reduzida diante das centenas de administrações municipais existentes. A expansão dos pilotos será importante para avaliar se o sistema atende a realidades administrativas distintas.

O desenvolvimento também está aberto a contribuições externas. O código é publicado em uma instância do Forgejo mantida pelo BZK e seus repositórios estão disponíveis no Codeberg. A publicação permite examinar os componentes, acompanhar mudanças e propor melhorias, embora a adoção em larga escala dependa também de suporte técnico e planejamento.

Por que a escolha recaiu sobre o NixOS

O sistema operacional das estações de trabalho passou por avaliações de diferentes alternativas. Primeiro, foram testados o openSUSE e o Fedora; posteriormente, o projeto optou pelo NixOS.

Um dos principais atrativos da distribuição é a configuração declarativa: em vez de ajustar cada computador manualmente, administradores podem especificar como o sistema deve funcionar. Essa abordagem favorece a padronização e permite reproduzir a mesma configuração em várias máquinas, facilitando atualizações, manutenção e auditoria.

A possibilidade de recriar ambientes de forma previsível pode ser especialmente útil para órgãos públicos que precisam administrar muitos equipamentos e comprovar quais configurações estão em uso. Além disso, o NixOS não está vinculado a um fornecedor comercial específico, característica alinhada ao objetivo de reduzir dependências.

A escolha também tem uma conexão histórica com o país. O sistema de gerenciamento de pacotes Nix foi criado pelo neerlandês Eelco Dolstra, e a primeira versão da distribuição NixOS baseada nessa tecnologia foi desenvolvida por Armijn Hemel. A fundação ligada ao NixOS também está sediada na Holanda.

A tecnologia aberta, porém, não elimina por si só todos os riscos de dependência. Um governo ainda precisa contar com profissionais capacitados, documentação, suporte de longo prazo e processos claros para responder a falhas de segurança. Também é necessário avaliar a compatibilidade com sistemas existentes e garantir que os serviços essenciais continuem funcionando durante uma eventual migração.

O ecossistema Nix enfrentou, nos últimos anos, divergências sobre governança e patrocínio. Em 2023, organizadores de uma conferência retiraram o apoio financeiro da empresa norte-americana Anduril, que atua no setor de sistemas autônomos de defesa, após objeções de colaboradores. As discussões contribuíram para a criação do fork Auxolotl. O episódio evidencia que projetos abertos também precisam lidar com decisões institucionais e conflitos de interesse.

Ainda assim, o modelo de código aberto oferece ao setor público mais possibilidades de inspeção e adaptação do que soluções fechadas. Isso não significa que qualquer órgão possa assumir o controle total de uma tecnologia compartilhada, mas permite examinar o código e reduzir a dependência de um único fornecedor.

Por enquanto, o DAWO não representa uma migração completa da administração pública holandesa. Os testes indicam uma etapa de avaliação: o governo procura verificar se é possível operar computadores, comunicação, colaboração e nuvem com mais controle sobre a infraestrutura. Se os pilotos demonstrarem viabilidade, o projeto poderá servir de base para uma adoção gradual e mais ampla.