Ataques cibernéticos alteram temperaturas e causam perdas em supermercados europeus

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Ataques cibernéticos alteram temperaturas e causam perdas em supermercados europeus

Uma nova onda de ataques contra sistemas de refrigeração comercial afetou supermercados na Bélgica, na Irlanda, em Luxemburgo e na Suécia. Invasores modificaram remotamente as configurações de geladeiras e freezers, fazendo alguns equipamentos ultrapassarem 50 °C. Com a conservação comprometida, diversas lojas precisaram descartar alimentos frescos e congelados.

Os incidentes foram identificados na madrugada de domingo para segunda-feira, dia 2. Em alguns estabelecimentos, os sistemas foram colocados em modo de descongelamento, o que provocou prejuízos, reduziu a oferta de produtos e exigiu mudanças na rotina das equipes.

Na Bélgica, cerca de 40 lojas da rede Delhaize foram atingidas. Em uma unidade Proxy Delhaize em Overijse, perto de Bruxelas, o responsável pela loja descreveu a situação como catastrófica: foi necessário eliminar os produtos frescos e congelados, além de lidar com uma operação bastante dificultada.

A Delhaize confirmou um incidente de tecnologia da informação que afetou os controles de refrigeração em dezenas de unidades. A rede adotou medidas emergenciais para manter as lojas abertas, mas avisou que a disponibilidade de alimentos frescos e congelados ficaria temporariamente limitada. Seus centros de distribuição, segundo a empresa, continuaram operando normalmente, sem interrupção nas entregas.

Outras varejistas belgas também registraram problemas. Aproximadamente 15 unidades do Carrefour foram afetadas, assim como lojas Intermarché, Spar e Shop & Go instaladas em postos de combustível Q8. A rede de açougues De Laet & Van Haver relatou temperaturas anormais nos equipamentos, mas informou que não houve perda de mercadorias e que todas as unidades permaneceram abertas.

Na Suécia, a ICA confirmou incidentes em um pequeno número de estabelecimentos que funcionam fora de sua infraestrutura centralizada. Os ataques atingiram sistemas de refrigeração e congelamento, e equipes técnicas foram mobilizadas para auxiliar as lojas. A empresa não divulgou a quantidade de alimentos descartados nem indicou quando os equipamentos voltariam à normalidade.

Uma unidade ICA Nära em Böda, na ilha de Öland, seguiu atendendo clientes, mas ficou sem condições de vender produtos frescos e congelados. Ao chegar ao trabalho na manhã de segunda-feira, o gerente encontrou água acumulada no piso e freezers configurados para 55 °C. A Coop também confirmou ocorrências semelhantes em seis lojas na região central sueca.

Na Irlanda, ao menos 13 supermercados SuperValu foram afetados, de acordo com a controladora Musgrave. As lojas atingidas tiveram de descartar alimentos frescos e congelados que já não podiam ser considerados seguros para comercialização.

A série de incidentes ocorreu menos de um mês após ataques semelhantes contra supermercados na França. Em meados de outubro, redes como Carrefour, Coopérative U, Intermarché e Monoprix tiveram sistemas de refrigeração manipulados remotamente. Centenas de lojas teriam sido afetadas, com grandes volumes de alimentos descartados.

As investigações francesas apontaram que pelo menos parte dos estabelecimentos utilizava versões antigas do firmware de controladores de refrigeração da Danfoss. Após os casos, o CERT-FR emitiu um alerta sobre comprometimentos envolvendo equipamentos Danfoss AK-SM e AK-SC, usados para monitorar e administrar sistemas de refrigeração comercial.

Ainda assim, nem todos os ataques parecem estar ligados aos mesmos dispositivos. A Coopérative U, por exemplo, declarou que não utilizava soluções da Danfoss. Também não está esclarecido se os incidentes mais recentes na Bélgica, Irlanda, Luxemburgo e Suécia empregaram os mesmos métodos observados na França. As empresas consultadas não identificaram os responsáveis pelas invasões.

Por que um ataque à refrigeração pode paralisar uma loja

Os sistemas de refrigeração são parte essencial da operação de um supermercado. Eles controlam a temperatura de câmaras frias, balcões, geladeiras e freezers, além de monitorar o funcionamento dos equipamentos. Se alguém altera suas configurações, o estabelecimento pode continuar com caixas e sistemas de venda funcionando, mas perder a capacidade de armazenar e comercializar muitos alimentos.

Esse tipo de ocorrência também evidencia a conexão entre tecnologia operacional e segurança digital. Equipamentos industriais e comerciais que antes eram administrados localmente podem estar integrados a redes e ferramentas de acesso remoto. Essa conectividade facilita a manutenção, mas, se não for protegida adequadamente, pode abrir caminho para alterações indevidas.

Manter o firmware atualizado é uma das medidas importantes para reduzir riscos, especialmente quando fabricantes corrigem falhas em versões posteriores. Também é recomendável que as empresas revisem quem pode acessar os controladores, removam contas que não são mais necessárias e evitem credenciais compartilhadas ou fáceis de adivinhar.

Outra proteção é separar os sistemas de refrigeração das redes usadas para tarefas administrativas e comerciais. A segmentação limita a possibilidade de que um invasor que obtenha acesso a um ambiente consiga alcançar outros equipamentos. O monitoramento de alterações de temperatura e de configurações também pode ajudar a identificar comportamentos incomuns antes que as perdas se ampliem.

Planos de resposta a incidentes são igualmente relevantes. As lojas precisam saber como verificar temperaturas, isolar equipamentos comprometidos, acionar equipes técnicas e registrar os produtos que podem ter sido afetados. Procedimentos claros permitem agir com rapidez e ajudam a reduzir riscos para consumidores e funcionários.

Os casos mostram que um ataque cibernético não precisa atingir os sistemas de pagamento para causar impacto direto em uma rede varejista. Ao comprometer a refrigeração, os invasores podem provocar desperdício de alimentos, custos de reposição, interrupções operacionais e redução temporária da oferta. A proteção das tecnologias que mantêm os produtos em condições adequadas tornou-se, portanto, parte central da continuidade dos negócios.