Samsung e mousterian lançam data center flutuante de 50 Mw no texas para Ia

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Samsung e Mousterian avançam em data center flutuante de 50 MW no Texas e miram nova geração de infraestrutura para IA

A Samsung Heavy Industries firmou um contrato de engenharia com a norte-americana Mousterian Corporation para tirar do papel o primeiro data center flutuante da empresa no estado do Texas. O acordo marca a transição da fase de parceria inicial para um estágio mais concreto de desenvolvimento, definindo os parâmetros técnicos necessários para a futura construção da estrutura.

Baseada em Dallas, a Mousterian se posiciona como uma desenvolvedora de infraestrutura de data centers instalada em ambientes próximos à água, como rios, baías e áreas costeiras. O projeto em andamento prevê uma unidade atracada com capacidade crítica de TI de 50 MW, desenhada especialmente para atender cargas de trabalho intensivas em inteligência artificial e demandas de hyperscale, como grandes plataformas de nuvem e processamento de dados em larga escala.

Pelo contrato firmado, Samsung Heavy Industries e Mousterian irão atuar em conjunto no projeto básico, na engenharia detalhada e no desenho de produção das plataformas flutuantes. Essa etapa de engenharia é considerada preparatória para um futuro contrato de Engenharia, Suprimentos e Construção (EPC), que consolidará o cronograma e o modelo de execução da obra.

A expectativa é que as instalações sejam classificadas pelo American Bureau of Shipping (ABS), entidade responsável por definir regras técnicas, critérios de segurança e padrões de integridade estrutural para embarcações, plataformas e demais estruturas marítimas. Essa certificação é vista como fundamental para garantir que o data center atenda requisitos rigorosos de operação em ambiente aquático.

Além do projeto pioneiro no Texas, Samsung e Mousterian planejam desenvolver uma série de outros data centers flutuantes sob medida para o mercado norte-americano, mantendo a mesma faixa de capacidade crítica de TI de 50 MW por unidade. A ideia é criar um portfólio modular que possa ser replicado em diferentes regiões, de acordo com a proximidade de fontes de energia e a demanda por processamento.

Entre os principais argumentos a favor desse modelo estão a diminuição da pressão por grandes terrenos em áreas urbanas ou industriais, cada vez mais caros e disputados; a possibilidade de reposicionar fisicamente as estruturas ao longo do tempo; e o uso da água ao redor da plataforma como elemento estratégico no sistema de resfriamento dos equipamentos de TI.

De acordo com a Mousterian, a solução de cooling adotada será baseada em refrigeração não evaporativa, evitando o consumo de água potável e impedindo o descarte de fluidos no meio aquático. A empresa também destaca que a ausência de chillers tradicionais e de grandes sistemas de ventilação refrigerados a ar deve contribuir para reduzir significativamente o ruído, um problema recorrente em data centers instalados próximos a áreas habitadas.

A Samsung Heavy Industries vem expandindo sua atuação em projetos de data centers flutuantes desde o início de 2024, aproveitando décadas de experiência em construção naval e engenharia offshore para se posicionar em um mercado emergente de infraestrutura computacional. Essa estratégia se apoia no crescimento acelerado da demanda por capacidade para IA generativa, análise de dados e serviços em nuvem.

Em julho, a companhia sul-coreana assinou um acordo com a fabricante de servidores Supermicro para testar, em condições reais, o desempenho de sistemas de IA instalados em estruturas flutuantes posicionadas em rios e em áreas offshore. A Samsung trabalha com o objetivo de colocar sua primeira unidade comercial desse tipo em operação por volta de 2028, criando um novo segmento de negócio dentro de seu portfólio industrial.

O projeto-piloto desenvolvido com a Mousterian tem um papel central nessa visão: demonstrar que data centers flutuantes ancorados próximos a usinas de geração existentes podem entrar em operação mais rapidamente do que instalações convencionais erguidas em terra. A lógica é aproveitar a infraestrutura elétrica já disponível, reduzir a necessidade de grandes obras civis e encurtar o tempo entre planejamento e entrega de capacidade de TI.

A primeira unidade do empreendimento deve ser posicionada ao lado de uma usina de geração por turbina a gás de ciclo combinado (CCGT) na região de Houston. Nesse tipo de planta, o calor residual da turbina a gás é recuperado para produzir eletricidade adicional por meio de uma segunda etapa de geração, melhorando a eficiência energética global do sistema. A proximidade com uma CCGT abre espaço, inclusive, para estudos de integração térmica e otimização energética entre usina e data center.

Para Min Suh, CEO da Mousterian, a assinatura do contrato com a Samsung Heavy Industries transforma uma parceria estratégica em um projeto de execução real, criando um caminho de escala para a fabricação seriada de infraestrutura crítica de TI voltada a sistemas de inteligência artificial. Segundo o executivo, o uso de estaleiros como ambiente de construção proporciona uma vantagem competitiva relevante.

Enquanto a estrutura flutuante é produzida no estaleiro, as obras de adaptação e preparação do local de atracação podem avançar em paralelo, o que reduz de forma significativa o prazo total de implantação em comparação com a construção tradicional de data centers em terra. Esse modelo industrializado também facilita a padronização de componentes, a repetição de projetos bem-sucedidos e a manutenção ao longo do ciclo de vida da instalação.

Na visão de Sung-an Choi, CEO da Samsung Heavy Industries, os data centers flutuantes representam uma evolução natural das competências acumuladas pela empresa em cinco décadas de projetos navais e offshore. A expertise em construir navios de grande porte, plataformas e estruturas para a indústria de energia é agora reaplicada a um novo tipo de “navio de dados”, projetado para sustentar a infraestrutura digital da economia moderna.

Apesar do otimismo tecnológico e da viabilidade industrial, o projeto terá de superar um desafio regulatório importante: o acesso à rede elétrica do Texas. O governador Greg Abbott determinou a suspensão temporária das aprovações de novos data centers que solicitaram conexão ao sistema operado pelo Electric Reliability Council of Texas (ERCOT), entidade responsável pela coordenação do grid elétrico no estado.

A suspensão ficará em vigor enquanto as autoridades regulatórias texanas auditam os pedidos de conexão em análise. De acordo com declarações oficiais, o ERCOT avalia solicitações que, somadas, ultrapassam 474 GW de capacidade – um volume superior a cinco vezes o pico histórico de demanda elétrica do estado. Os data centers respondem por aproximadamente 90% dessa potência requisitada, o que acendeu um alerta sobre o impacto desses projetos na estabilidade da rede.

Por orientação do governo estadual, a Public Utility Commission of Texas (PUCT) e o próprio ERCOT passaram a exigir informações adicionais de cada empreendimento. Entre os pontos de atenção estão a existência (ou não) de geração própria de energia, o grau de dependência da rede pública, o perfil temporal de consumo e a estimativa de uso de água em processos de resfriamento e suporte operacional. Projetos que não se adequarem aos critérios definidos pelos reguladores correm o risco de ter seus pedidos de conexão recusados.

Se por um lado esse cenário adiciona incerteza ao cronograma, por outro ele reforça a importância de soluções mais eficientes e sustentáveis, como é o caso do data center flutuante da Mousterian com a Samsung. Ao adotar refrigeração não evaporativa e afastar-se do consumo intensivo de água potável, o projeto se alinha a preocupações de longo prazo com recursos hídricos, especialmente em estados sujeitos a secas e restrições de uso de água para fins industriais.

Além disso, o uso de plataformas flutuantes permite maior flexibilidade de localização em relação a fontes de energia. Em teoria, unidades desse tipo podem ser posicionadas próximas a diferentes usinas – térmicas, renováveis ou híbridas – e, se necessário, realocadas para áreas onde haja maior disponibilidade de capacidade elétrica ou incentivos regulatórios mais favoráveis.

A escalabilidade modular é outro ponto estratégico. Em vez de construir um mega data center fixo em um único terreno, as empresas podem planejar “frotas” de módulos de 50 MW, distribuídos ao longo de portos, rios ou áreas costeiras. Esse modelo pode facilitar o atendimento a demandas regionais de IA e computação em nuvem, reduzir latência para determinados mercados e permitir expansão gradual conforme a necessidade dos clientes.

Do ponto de vista geopolítico e econômico, o Texas se destaca como um laboratório ideal para esse tipo de inovação. O estado combina grande disponibilidade de geração energética (incluindo gás natural, eólica e solar), tradição em infraestrutura offshore e um ecossistema tecnológico em rápida expansão, impulsionado por empresas de nuvem, fabricantes de chips e startups de IA. Ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de equilibrar crescimento digital com segurança energética.

O avanço de data centers flutuantes também abre espaço para novos modelos de parceria entre operadores de energia, construtoras navais, fabricantes de hardware e provedores de nuvem. Em vez de cada ator operar isoladamente, ganha força a ideia de consórcios integrados, capazes de entregar infraestrutura completa – da geração de eletricidade ao rack de servidor – em um único pacote turnkey.

No horizonte de médio prazo, soluções desse tipo podem se tornar parte da resposta à pressão crescente por capacidade computacional para IA generativa, treinamento de modelos de larga escala e processamento em tempo real. À medida que algoritmos mais complexos exigem clusters de GPUs e aceleradores mais densos e energéticos, a eficiência no uso de energia e no resfriamento deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser condição de viabilidade econômica.

Do lado ambiental, a adoção de estruturas flutuantes demanda atenção constante a impactos sobre ecossistemas aquáticos, tráfego marítimo e comunidades costeiras. Por isso, a classificação por entidades como o ABS e o cumprimento de normas ambientais locais e federais serão determinantes para a expansão desse modelo em larga escala. Estudos de impacto, monitoramento contínuo e transparência de dados tendem a ser exigidos por reguladores e pela sociedade.

Em paralelo, a indústria observa com interesse como projetos como o da Samsung e da Mousterian podem ser adaptados para outros contextos, como regiões com alta densidade urbana e pouca disponibilidade de terrenos, países com longas costas navegáveis ou locais em que a infraestrutura elétrica terrestre é limitada, mas existem corredores fluviais estratégicos.

Se o projeto texano conseguir vencer as barreiras regulatórias e cumprir as metas de prazo e eficiência anunciadas, pode se transformar em referência para uma nova geração de data centers flutuantes voltados a IA e hyperscale. Nesse cenário, o mar – e os rios – deixariam de ser apenas rotas de transporte e fontes de recursos naturais para se tornarem também “plataformas digitais”, sustentando parte relevante da infraestrutura da economia de dados global.