EUA estudam endurecer bloqueio a operadoras chinesas após novos alertas de espionagem digital
Um comitê bipartidário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos voltou a colocar as operadoras estatais chinesas no centro do debate sobre segurança nacional. Em um relatório de 49 páginas, o Select Committee on China concluiu que China Mobile, China Unicom e China Telecom continuam profundamente inseridas em pontos sensíveis da infraestrutura de internet norte‑americana, mesmo depois de terem perdido, entre 2019 e 2022, as autorizações formais para oferecer determinados serviços de telecomunicações no país.
A investigação foi deflagrada após uma ampla campanha de espionagem cibernética atribuída ao grupo Salt Typhoon, que teria comprometido pelo menos nove operadoras de telecom dos EUA. Para além da análise técnica de redes e sistemas, o comitê intimou as três empresas a entregar documentos internos e realizou entrevistas com executivos e funcionários. O diagnóstico central do relatório é que nenhuma das operadoras atua de forma independente de suas controladoras na China, todas elas com laços diretos e estreitos com o governo e com o Partido Comunista Chinês.
A Comissão Federal de Comunicações (FCC) já havia revogado ou negado licenças da Seção 214, que regulam a oferta de certos serviços internacionais de telecomunicações. Essas decisões, no entanto, tiveram alcance limitado: elas cortaram permissões regulatórias, mas não exigiram a retirada de equipamentos já instalados, o fechamento de operações físicas nem a rescisão de contratos com operadoras norte‑americanas e empresas de tecnologia.
Na prática, aponta o relatório, as três gigantes chinesas continuaram operando em um nível estrutural: mantiveram infraestrutura própria, acordos de interconexão com outras redes, presença em data centers e pontos de troca de tráfego que, no dia a dia, são tratados como componentes confiáveis da espinha dorsal da internet dos EUA. É justamente essa permanência silenciosa na camada de infraestrutura que, na visão dos parlamentares, abre brechas críticas para espionagem, monitoramento e eventual sabotagem digital.
Diante desse quadro, o comitê recomenda que o Congresso amplie os poderes legais da FCC, permitindo a adoção de medidas mais drásticas. Entre as propostas, estão a possibilidade de obrigar operadoras americanas a substituir equipamentos fornecidos por China Mobile, China Unicom e China Telecom, além de limitar ou proibir a continuidade de contratos de trânsito, peering e hospedagem de equipamentos dessas empresas em território norte‑americano.
O presidente do comitê, deputado John Moolenaar, sustenta que as três operadoras representam uma ameaça estrutural à infraestrutura digital dos Estados Unidos justamente por estarem subordinadas ao Partido Comunista Chinês e às leis de segurança nacional da China. Segundo ele, enquanto essa dependência política e legal existir, a rede norte‑americana permanecerá vulnerável a novas campanhas coordenadas de ciberataques patrocinados pelo Estado chinês.
Um dos eixos da investigação foi avaliar o impacto real da revogação das autorizações previstas na Seção 214. O objetivo dessa seção é controlar a prestação de determinados serviços internacionais e garantir que redes estrangeiras não coloquem em risco a segurança dos EUA. Os parlamentares, contudo, concluíram que, em vez de deixarem o país, as empresas simplesmente migraram parte de seus negócios para segmentos de rede menos regulamentados, como serviços de interconexão, trânsito IP e infraestrutura de data center.
Essa movimentação teria permitido às operadoras chinesas preservar uma presença discreta porém estratégica em nós críticos da internet norte‑americana. O relatório descreve que elas continuaram administrando redes privadas virtuais (VPNs), alugando espaço físico em instalações de terceiros, intermediano equipamentos de outros fabricantes e roteando tráfego internacional que transita pelo território dos EUA. Em muitos casos, toda essa atividade ocorre em camadas técnicas de difícil supervisão pelo usuário final e até por reguladores.
Outro ponto de preocupação é o uso contínuo de equipamentos projetados e fabricados por empresas chinesas sujeitas à legislação de segurança da China, que pode obrigá‑las a cooperar com agências de inteligência e defesa. Para o comitê, isso significa que tanto a infraestrutura das operadoras quanto os dispositivos utilizados por parceiros podem ser acionados, em tese, para ampliar a capacidade de coleta de dados, desvio de rotas ou ataques coordenados.
A investigação também se debruça sobre a estrutura de controle societário dessas companhias. De acordo com o relatório, China Mobile, China Unicom e China Telecom pertencem, em última instância, a conglomerados estatais supervisionados pela Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado da China (SASAC). Essa cadeia de propriedade é organizada por meio de holdings em Hong Kong e empresas registradas em paraísos fiscais, o que, segundo parlamentares, contribui para dificultar a rastreabilidade e a transparência sobre quem, de fato, define as prioridades estratégicas das operadoras.
Durante as entrevistas realizadas em setembro de 2025, alguns representantes das empresas responderam às perguntas dos investigadores, enquanto outros se recusaram a confirmar até mesmo informações básicas sobre quem seriam seus empregadores formais ou como se dava a relação com as controladoras na China. Nenhum dos entrevistados afirmou ter conhecimento prévio das notícias envolvendo o grupo Salt Typhoon ou reconheceu qualquer vínculo com as atividades de espionagem descritas por órgãos de inteligência dos EUA.
O relatório evita dizer de forma categórica que a China Mobile participou diretamente da operação Salt Typhoon. Ainda assim, os investigadores afirmam ter encontrado evidências técnicas que conectam parte da infraestrutura explorada pelos invasores à rede da operadora. Essa associação não prova comando direto, mas reforça, para o comitê, a tese de que a presença de operadoras chinesas em pontos críticos da internet americana cria oportunidades valiosas para grupos de ameaça avançados alinhados a interesses de Estado.
No caso da China Telecom, o documento recupera uma série de incidentes históricos de desvio de rotas BGP (o chamado BGP hijacking), em que o tráfego de órgãos do governo dos EUA e de grandes empresas foi, temporariamente, redirecionado para redes controladas na China. Em alguns episódios, essas falhas foram tratadas publicamente como problemas operacionais. Porém, de acordo com o relatório, investigações do Departamento de Justiça indicaram que certos incidentes tiveram potencial concreto para permitir interceptação ou até modificação de dados sensíveis em trânsito.
A China Unicom, por sua vez, é relacionada no texto a uma empresa chamada Integrity Tech, alvo de sanções norte‑americanas por suposto envolvimento em operações de espionagem cibernética patrocinadas por Pequim. Além disso, a Unicom mantém parceria corporativa com a i‑SOON, companhia de segurança cibernética acusada pelas autoridades dos EUA de participar de múltiplas campanhas de invasão contra alvos governamentais e privados.
Ao final, o comitê recomenda um novo pacote de medidas para restringir ainda mais a atuação das três operadoras no mercado dos EUA e fortalecer os mecanismos de proteção da infraestrutura digital do país. Entre as possibilidades discutidas estão a criação de prazos e incentivos financeiros para que operadoras americanas substituam gradualmente equipamentos e serviços fornecidos por empresas ligadas ao governo chinês, bem como a exigência de maior transparência sobre rotas de tráfego e parcerias de interconexão com redes estrangeiras.
Além das propostas imediatas, o relatório sugere a construção de uma política de longo prazo para reduzir a dependência de fornecedores considerados de “alto risco”. Isso incluiria programas de estímulo à indústria doméstica de equipamentos de rede, apoio a alternativas de aliados estratégicos e critérios mais rigorosos nas licitações públicas que envolvam dados governamentais, infraestrutura crítica ou serviços utilizados por setores essenciais como energia, saúde e finanças.
O documento também aponta a necessidade de modernizar o arcabouço regulatório. O comitê argumenta que normas concebidas para uma era de telefonia tradicional não são suficientes para lidar com o grau de interconexão atual, em que fronteiras entre serviços, camadas de rede e jurisdições nacionais se tornam difusas. A recomendação é que novas regras permitam à FCC agir de forma preventiva, inclusive em áreas que hoje escapam de seu controle direto, como determinados serviços em nuvem, roteamento de tráfego global e parcerias tecnológicas de alto impacto.
Outro tema recorrente é a dificuldade de monitorar riscos quando os contratos são firmados entre empresas privadas, sem obrigatoriedade de notificação detalhada ao governo. O comitê sugere, por exemplo, a criação de obrigações de reporte para operadoras e provedores que mantenham relacionamento comercial com entidades estrangeiras classificadas como de preocupação de segurança nacional. Isso incluiria informações sobre natureza dos serviços, localização dos equipamentos e tipos de dados que podem trafegar por esses canais.
Do ponto de vista geopolítico, o relatório reflete a intensificação da rivalidade tecnológica entre Washington e Pequim. A disputa não se limita mais a tarifas ou propriedade intelectual, mas avança sobre a infraestrutura física e lógica que sustenta a economia digital global. Para os parlamentares americanos, o controle – direto ou indireto – sobre cabos submarinos, pontos de troca de tráfego, roteadores de backbone e grandes data centers se tornou um ativo estratégico comparável a bases militares ou rotas comerciais.
A discussão traz também implicações para outros países, inclusive emergentes, que dependem fortemente de equipamentos e serviços de telecomunicações de origem chinesa. As conclusões do comitê podem servir de referência para governos que avaliam riscos associados a parcerias em 5G, redes de transporte óptico, soluções de nuvem e serviços gerenciados de segurança. O dilema central é equilibrar custo, velocidade de implantação e acesso à tecnologia com a exposição a potenciais instrumentos de influência e vigilância estrangeira.
Para empresas de telecom e provedores de serviços digitais, o recado é claro: depender de infraestrutura de fornecedores sob forte controle estatal de países adversários tende a ser, cada vez mais, visto como um risco regulatório e reputacional. O relatório indica que autoridades norte‑americanas estão dispostas a ampliar o escrutínio sobre cadeias de suprimentos, contratos de interconexão e modelos de prestação de serviços que envolvam atores classificados como de “alto risco”.
Em última instância, o trabalho do comitê reforça a tendência de fragmentação da internet global em blocos com regras, padrões de segurança e fornecedores preferenciais distintos. A decisão sobre até que ponto restringir operadoras chinesas no mercado dos EUA não é apenas técnica: ela envolve cálculos políticos, econômicos e diplomáticos. Mas, conforme o relatório, a mensagem predominante em Washington é que a preservação da integridade da infraestrutura digital do país passa, necessariamente, por reduzir a presença de empresas vistas como extensões de um governo estrangeiro rival.
