Segurança da informação em números: cinco anos que mudaram a maturidade do mercado brasileiro
A segurança da informação no Brasil entrou em uma nova fase. Em apenas cinco anos, entre 2021 e 2026, o mercado passou por uma transformação acelerada: quase todas as empresas passaram a investir de forma estruturada em cibersegurança, ao mesmo tempo em que o cenário de ameaças se tornou mais sofisticado e persistente.
A série histórica do Brazilian CyberSecurity Index, conduzida pela BugHunt, acompanhou de perto esse movimento. O estudo monitorou continuamente 240 companhias ao longo de cinco anos, medindo evolução de maturidade, volume e qualidade dos investimentos e os vetores de ataque mais relevantes para o ambiente corporativo brasileiro.
Um dos saltos mais emblemáticos está no comprometimento de longo prazo com a segurança. Em 2021, apenas 14% das organizações mantinham mais de cinco anos de investimentos contínuos na área. Em 2026, esse índice atingiu 67%, sinalizando que segurança deixou de ser tratada como gasto pontual e passou a integrar o planejamento estratégico das empresas.
O percentual de organizações que investem em segurança da informação também cresceu de forma expressiva. Em 2021, 72% das empresas destinavam algum orçamento à área. Cinco anos depois, esse número alcançou 96%, praticamente universalizando o tema dentro do ambiente corporativo nacional. Na prática, isso significa que a segurança já não é um luxo ou um diferencial: tornou-se requisito básico para operar.
Esse avanço, porém, não aconteceu por acaso – nem apenas por visão estratégica. Conforme destaca Caio Telles, CEO da BugHunt, o amadurecimento foi impulsionado sobretudo pela pressão constante dos ataques. Os cibercriminosos mantiveram um ritmo intenso de exploração de brechas, obrigando as empresas a reagir. Não se trata necessariamente de ataques cada vez mais sofisticados, mas de uma insistência que expõe qualquer falha operacional, técnica ou humana.
Um exemplo emblemático dessa dinâmica é o phishing. Mesmo com mais empresas investindo em tecnologia e estrutura de segurança, essa técnica continuou crescendo de forma ininterrupta ao longo de toda a série histórica. Em 2021, 28% das companhias haviam sido vítimas de ataques de phishing. Em 2026, o índice salta para 58%, mais que o dobro. O dado reforça a tese de que segurança não é apenas firewall, antivírus ou soluções avançadas, mas também processo, cultura e comportamento dos usuários.
Telles observa que o phishing permanece como o principal vetor de ataque às organizações brasileiras, apesar da ampliação dos investimentos. Para ele, isso comprova que não basta comprar ferramentas: é preciso desenhar processos, treinar continuamente as equipes, testar os controles na prática e revisar políticas de forma recorrente. Sem um ciclo constante de validação, a exposição a ameaças permanece alta, mesmo em empresas com orçamento relevante.
Ao analisar o conjunto da pesquisa, fica claro que o perfil de risco enfrentado pelas organizações mudou consideravelmente entre 2021 e 2026. Nos primeiros anos, as maiores preocupações estavam concentradas em ameaças mais “tradicionais”, como malware, ransomware e vazamentos massivos de dados. Já na edição mais recente, ganham espaço problemas relacionados à identidade digital, à autenticação e à expansão dos ambientes conectados.
As falhas de autenticação, por exemplo, passaram a afetar 31% das companhias. A exploração de vulnerabilidades atingiu 23% das empresas, enquanto a indisponibilidade de sistemas alcançou 19%. Esses dados mostram que, à medida que as organizações se digitalizam, ampliam-se também os pontos de entrada e de falha: identidades mal gerenciadas, senhas fracas, configurações inadequadas e aplicações expostas se tornam alvos valiosos.
Em paralelo, algumas ameaças que antes lideravam os indicadores perderam espaço relativo no conjunto das ocorrências. O malware, que atingia 24% das empresas em 2021 e 25% em 2022, recuou para 15% em 2026. O ransomware, por sua vez, caiu de 25% em 2022 para 12% na edição mais recente do levantamento. Isso não significa que deixaram de representar risco, mas que a atenção do mercado se redistribuiu diante da ampliação das superfícies de ataque.
Telles resume essa mudança ressaltando que o foco saiu de uma visão quase exclusiva em malware e ransomware para uma agenda mais ampla, na qual phishing, identidade digital e exploração de vulnerabilidades ocupam posição central. Essa transição acompanha a aceleração da transformação digital, com mais sistemas em nuvem, trabalho remoto, uso intenso de APIs e aplicações distribuídas – fatores que multiplicam os pontos de exposição.
Ao mesmo tempo, o estudo evidencia um novo tipo de pressão sobre as áreas de segurança: a cobrança por resultados cresce, enquanto os orçamentos começam a perder fôlego. A pesquisa mostra que 39% das empresas não pretendem ampliar os investimentos em segurança em 2026. Outras 37% planejam aumentos de até 10%, algo muito próximo da inflação. Apenas 24% das organizações falam em crescimento real de recursos para a área.
Esse cenário consolida a entrada em uma fase de “mais com menos”. Se antes a resposta natural aos incidentes era adicionar novas ferramentas, agora as lideranças são pressionadas a extrair valor máximo do que já possuem. O estudo indica que 61% dos entrevistados apontam a melhoria contínua dos processos de segurança como prioridade número um para os próximos anos, superando até iniciativas de prevenção pontual, recuperação de desastres e planos clássicos de continuidade.
Na visão de Telles, o mercado já entendeu que empilhar soluções sem integração não resolve o problema. A eficiência operacional, a capacidade de orquestrar diferentes tecnologias, a troca de informações entre áreas de negócio e segurança e a busca por indicadores claros de desempenho ganham peso. Em outras palavras, segurança da informação passa a ser cobrada como uma função de negócio, com metas, entregas mensuráveis e impacto direto na operação.
Diante desse contexto de restrição orçamentária e complexidade crescente, a inteligência artificial desponta como principal aposta tecnológica para o futuro próximo. De acordo com o relatório, 63% das empresas pretendem priorizar o uso de IA em segurança nos próximos dois anos. Logo atrás aparecem automação e orquestração de respostas a incidentes (51%), implementação de arquiteturas Zero Trust (49%), fortalecimento da segurança em ambientes de nuvem (40%) e proteção de aplicações (34%).
Esse movimento reflete a necessidade prática de ampliar a capacidade de detecção e resposta sem depender apenas do aumento de equipes. A IA e a automação podem assumir tarefas repetitivas, como correlação de alertas, análise de logs em grande volume e identificação de padrões anômalos, liberando analistas humanos para decisões estratégicas e incidentes mais complexos. Para organizações que enfrentam escassez de profissionais e orçamentos mais estáveis, essa combinação passa a ser essencial.
Ao mesmo tempo, a adoção de arquiteturas Zero Trust mostra que as empresas buscam modelos mais maduros de controle, nos quais nenhum usuário, dispositivo ou aplicação é considerado confiável por padrão. Isso ganha relevância em um mundo em que fronteiras tradicionais de rede deixaram de existir. Com colaboradores remotos, múltiplos provedores de nuvem e integrações com parceiros e fornecedores, a confiança cega se torna um risco difícil de justificar.
A prioridade conferida à segurança em nuvem e à proteção de aplicações também traduz a realidade atual dos negócios. Uma parcela significativa das operações já roda em ambientes híbridos ou totalmente cloud, e boa parte da lógica de negócio está embutida em softwares críticos para o faturamento e a experiência do cliente. Qualquer falha de segurança nesses pontos impacta diretamente a continuidade da empresa, sua imagem e sua competitividade.
Ao olhar para os próximos anos, os dados do Brazilian CyberSecurity Index sugerem que o desafio central para as empresas brasileiras será equilibrar maturidade e pragmatismo. A base de investimentos já foi construída: quase todas as organizações contam com alguma estrutura de segurança, ferramentas mais avançadas e times dedicados. O passo seguinte é fazer com que tudo isso funcione de forma coordenada, com processos claros e indicadores que permitam avaliar risco e retorno.
Nesse cenário, algumas prioridades tendem a se consolidar:
1. Fortalecimento da camada humana de segurança
Com o phishing disparado como principal vetor de ataque, programas contínuos de conscientização, simulações de ataques e treinamentos práticos passarão a ser tão críticos quanto qualquer solução tecnológica. O foco deixa de ser “fazer um workshop por ano” e passa a ser construir uma cultura diária de atenção a riscos digitais.
2. Gestão de identidades e acessos como pilar central
O avanço de falhas de autenticação e da exploração de credenciais expostas demonstra que senhas fracas, contas privilegiadas mal gerenciadas e políticas de acesso permissivas ainda são pontos críticos. Implementar autenticação multifator, revisar permissões com frequência e adotar o princípio do menor privilégio se tornarão medidas básicas, não diferenciais.
3. Validação contínua de controles e superfícies de ataque
Em um ambiente em que novas vulnerabilidades surgem o tempo todo, testar periodicamente os controles passa a ser tão importante quanto implementá‑los. Programas de testes de invasão recorrentes, bug bounty, varreduras de vulnerabilidades e simulações de incidentes ajudam a transformar segurança em prática dinâmica, e não em um projeto estático.
4. Integração entre segurança, tecnologia e negócio
A cobrança por eficiência e resultados obriga a segurança da informação a falar a linguagem do negócio. Isso significa conectar métricas de risco a indicadores como disponibilidade de sistemas, perda financeira evitada e preservação da confiança do cliente, facilitando o alinhamento com diretoria e conselhos.
5. Planejamento de longo prazo com visão de resiliência
Em vez de reagir a cada incidente com compras emergenciais, as empresas mais maduras tendem a adotar roadmaps plurianuais de segurança, combinando tecnologia, processos, governança e capacitação. A meta deixa de ser apenas “evitar ataques” e passa a ser “garantir resiliência”: capacidade de detectar, responder, recuperar e aprender com cada evento.
Os cinco anos analisados pela BugHunt mostram um mercado que saiu de uma postura ainda reativa e fragmentada para um estágio de maior maturidade, pressão por eficiência e foco em risco real. Apesar dos avanços, o aumento dos ataques de phishing e o crescimento das ameaças ligadas à identidade e vulnerabilidades deixam claro que não há espaço para acomodação.
O que se desenha para os próximos anos é um ambiente em que segurança da informação será cada vez mais parte do core do negócio. As empresas brasileiras que conseguirem transformar investimentos em processos bem desenhados, cultura sólida e uso inteligente de tecnologias como IA, automação e Zero Trust estarão mais preparadas para enfrentar um cenário em que a pergunta já não é “se” serão atacadas, mas “quando” e “quão rápido conseguirão se recuperar”.
