Exigir um pentest antes de contratar qualquer software não é mais um “plus” de segurança: é um critério básico para decidir se aquela solução tem ou não condições mínimas de operar dentro do ambiente da sua empresa. Cada nova aplicação que você coloca na sua infraestrutura – seja um ERP robusto, um CRM na nuvem, um sistema financeiro ou até um microserviço aparentemente inofensivo – acrescenta linhas de código, permissões de acesso, integrações com outros sistemas e, consequentemente, mais pontos possíveis de ataque.
Quanto mais ferramentas conectadas, maior a superfície de ataque. E, nesse contexto, confiar apenas na palavra do fornecedor ou em argumentos de marketing sobre “segurança de nível bancário” é entregar seu ambiente de bandeja para o próximo invasor. O único caminho responsável é condicionar qualquer contratação de software à apresentação de um pentest sério, realizado por uma empresa especializada e com reputação técnica comprovada.
Pentest não é formalidade comercial, é filtro de risco
Na prática, o que acontece quando um cliente começa a exigir relatório de pentest? Muitos fornecedores, pressionados por exigências comerciais, correm atrás do serviço mais barato e genérico que encontram, apenas para ter um PDF em mãos. Não é raro ver testes limitados a um scan automatizado superficial, com pouca ou nenhuma validação manual.
O resultado são relatórios longos, cheios de gráficos, termos técnicos e tabelas coloridas, mas que não demonstram exploração real, não descrevem cenários de ataque plausíveis, não apresentam provas de conceito, capturas de tela ou evidências que sustentem o risco. É o famoso “scan maquiado de pentest”: gera uma sensação de conforto, mas não reduz o risco de verdade.
Esse tipo de documento serve apenas para alimentar a ilusão de que “a solução foi testada”, enquanto, na prática, ela nunca foi submetida a um ataque controlado, conduzido como um invasor real faria. O perigo é óbvio: a empresa acredita estar protegida e só descobre a fragilidade quando o incidente acontece – geralmente com custo financeiro, operacional e reputacional muito maior.
O que diferencia um pentest real de um scan automatizado
Um pentest legítimo vai muito além de apertar o botão de uma ferramenta de varredura. Ele combina automação com análise humana especializada, exploração de vulnerabilidades, encadeamento de falhas e simulação de ataques realistas. Alguns sinais de que o teste foi realmente profundo:
– Descrição clara da metodologia utilizada (caixa preta, caixa cinza, caixa branca, escopo, limitações).
– Evidências de exploração prática: prints, payloads, dados acessados, comprovação de escalada de privilégios.
– Análise de impacto: o que o atacante poderia fazer de fato com aquela vulnerabilidade (roubar dados, modificar informações críticas, comprometer a infraestrutura inteira etc.).
– Recomendações específicas e priorizadas, não apenas frases genéricas sugerindo “aplicar patch” ou “revisar validações”.
Relatórios que se limitam a listar vulnerabilidades com base em CVEs genéricos, sem contextualizar o impacto real no ambiente testado, não cumprem o papel de apoiar decisões de negócio. Servem apenas para “ticar” um requisito de auditoria.
Confiar no papel sem entender quem testou é um erro estratégico
Outro ponto crítico é a falta de atenção a quem está por trás do relatório. Confiar apenas no documento, sem avaliar a empresa que executou o pentest e a senioridade do time responsável, é um erro recorrente. Um pentest feito por profissionais inexperientes ou por empresas de fachada tende a ser superficial, ainda que bem apresentado.
É fundamental verificar:
– Histórico e tempo de atuação da empresa de cibersegurança.
– Portfólio de clientes (especialmente em setores regulados ou críticos).
– Certificações da equipe (quando aplicável).
– Capacidade de esclarecer dúvidas técnicas sobre o relatório e aprofundar detalhes sob demanda.
Relatório fraco não reduz risco, ele só o esconde até que o comprometimento se torne inevitável. A função do pentest não é “cumprir tabela”, mas expor fragilidades de forma franca, antes que criminosos as explorem.
Frequência: testar uma vez por ano não acompanha a realidade
Mesmo quando o software passa por um pentest sério, muita gente erra na periodicidade. Sistemas modernos recebem atualizações constantes: novas funcionalidades, integrações com APIs de terceiros, mudanças no fluxo de autenticação, correções de bugs. Cada alteração no código pode abrir uma nova brecha, às vezes em pontos que pareciam estáveis.
A velha prática de fazer um ou dois pentests por ano não conversa mais com a dinâmica atual de desenvolvimento e entrega contínua. A lógica hoje é simples: atualizou, precisa testar. Isso não significa que todo update exija um pentest completo de meses, mas exige uma estratégia de testes recorrentes.
Pentests regulares – no mínimo mensais em sistemas críticos – combinados com varreduras contínuas e revisões de segurança no pipeline de desenvolvimento são o único modelo minimamente compatível com o cenário atual. Manter um sistema em produção por longos períodos sem validação de segurança é, na prática, escolher operar em exposição permanente.
A integração de IA no desenvolvimento aumenta a superfície de risco
A adoção de ferramentas de inteligência artificial no ciclo de desenvolvimento de software trouxe ganhos de produtividade, mas também novos vetores de risco. Geradores de código podem sugerir trechos inseguros, reproduzir padrões vulneráveis ou importar funções sem validações adequadas de entrada, autenticação ou autorização.
Além disso, muitas soluções de IA dependem de integrações com APIs externas, modelos hospedados em terceiros ou fluxos de dados sensíveis enviados para processamento. Isso amplia a cadeia de dependências e cria pontos adicionais de ataque, muitas vezes fora do controle direto da sua empresa.
Nesse contexto, o pentest torna-se ainda mais essencial. Não basta avaliar apenas a aplicação final: é preciso entender como a IA foi integrada, que dados são trocados, quais permissões foram concedidas e que tipo de exposição esse ecossistema cria. Falhas em componentes alimentados por IA podem gerar vazamento de informações, exposição de segredos de negócio ou até manipulação indevida de decisões automatizadas.
O vácuo regulatório no Brasil agrava o cenário
No Brasil, a ausência de um marco robusto de responsabilização por incidentes cibernéticos em infraestruturas críticas deixa um espaço perigoso. Sem regras claras sobre deveres de segurança, níveis mínimos de proteção e consequências jurídicas proporcionais à negligência, muitas organizações tratam a segurança como um “custo evitável”, e não como pilar de continuidade de negócio.
Isso é particularmente grave em setores como energia, finanças, saúde, transporte e serviços públicos conectados. Quando um software vulnerável é contratado para operar em ambientes críticos, o impacto de um ataque não se limita à perda de dados: pode afetar diretamente a prestação de serviços essenciais à população.
Nesse cenário, a responsabilidade prática recai ainda mais sobre quem contrata: se não há um arcabouço forte de responsabilização, o mínimo é elevar o nível de exigência técnica. E isso começa por pentests robustos, revisados periodicamente e tratados como critério inegociável para fornecedores que desejam atuar em ambientes sensíveis.
Empresas de cibersegurança de fachada: o perigo da “falsa proteção”
O crescimento da demanda por testes de segurança fez surgir um mercado paralelo de empresas de fachada que se apresentam como especialistas em cibersegurança, mas na prática apenas revendem ferramentas automatizadas ou entregam relatórios genéricos, sem nenhum trabalho de análise profunda.
Os sintomas desse tipo de atuação são fáceis de identificar:
– Propostas com preços muito abaixo da média de mercado, sem detalhamento de escopo.
– Foco quase exclusivo em “quantidade de vulnerabilidades encontradas”, e não em impacto e priorização.
– Resistência em explicar a metodologia ou em detalhar como os testes serão conduzidos.
– Relatórios padronizados demais, com poucas menções específicas ao contexto da sua empresa ou aplicação.
Ao contratar esse tipo de “serviço”, a organização acredita estar fazendo a lição de casa, mas, na prática, permanece exposta. Mais grave ainda: um falso sentimento de segurança leva a decisões de risco, como integrar o software a sistemas mais sensíveis ou ampliar permissões de acesso sem a devida cautela.
Como avaliar se o pentest apresentado é confiável
Ao exigir um pentest antes de contratar um software, não se limite a perguntar “tem relatório?”. É preciso olhar para a qualidade do que está sendo apresentado. Alguns pontos práticos de avaliação:
1. Escopo claramente definido
O relatório detalha o que foi testado (módulos, APIs, integrações, ambiente de produção ou homologação) e o que foi excluído?
2. Metodologia descrita
Há referência às abordagens utilizadas, fases de reconhecimento, exploração e pós-exploração, bem como limites éticos e técnicos adotados?
3. Evidências de exploração
As vulnerabilidades críticas e altas vêm acompanhadas de provas de conceito (PoC), prints, dados acessados ou cadeia de passos que o atacante seguiria?
4. Contextualização de impacto
O documento explica como aquela falha afeta o seu negócio — acesso a dados de clientes, movimentação financeira indevida, interrupção de serviço etc.?
5. Recomendações acionáveis
As correções são específicas, viáveis tecnicamente e priorizadas por criticidade, em vez de generalidades?
Se o fornecedor não consegue explicar o relatório, não sabe responder perguntas básicas sobre as vulnerabilidades apontadas ou trata o assunto com evasivas, isso é um forte indicativo de que a segurança não está sendo levada a sério.
Incorporando o pentest ao ciclo de contratação de software
Para que a exigência de pentest seja efetiva, ela precisa estar formalmente incorporada às políticas internas e processos de aquisição. Algumas ações práticas:
– Incluir, nos editais, contratos e processos de compra, cláusulas que obriguem o fornecedor a apresentar pentest realizado por empresa reconhecida, com data recente.
– Estabelecer critérios mínimos para aceitação do relatório (escopo, criticidade máxima tolerada, exigência de correção prévia de falhas graves).
– Prever, contratualmente, a obrigação de novos testes após grandes atualizações, mudanças de arquitetura ou incidentes relevantes.
– Integrar o time de segurança da informação às decisões de contratação, dando poder de veto em caso de riscos inaceitáveis.
Isso transforma o pentest de mera formalidade em instrumento real de governança e gestão de risco.
Contratar sem testar é assumir exposição deliberada
No ambiente cibernético atual, contratar um software sem pentest e operar sistemas sem validação recorrente é equivalente a deixar portas e janelas destrancadas em um bairro conhecido por assaltos. Mais cedo ou mais tarde, alguém vai tentar entrar.
Cada nova linha de código, cada integração com terceiros e cada recurso apoiado em IA amplia as possibilidades de exploração. A única forma responsável de lidar com isso é reconhecer que o risco existe, exigir transparência dos fornecedores e validar, na prática, o que é prometido em marketing.
Pentest recorrente, realizado por profissionais qualificados e tratado como requisito de negócio, não elimina todos os riscos — mas transforma vulnerabilidades desconhecidas em problemas identificados, priorizados e tratáveis. Ignorar esse passo é apostar que “com a minha empresa não vai acontecer”, uma aposta que, no cenário atual, tende a cobrar um preço alto demais.