Falha em chips wi-fi da broadcom pode dar acesso root a roteadores sem senha

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Falha em chips Wi-Fi da Broadcom pode dar acesso root a roteadores

Uma vulnerabilidade no software Wi-Fi da Broadcom pode permitir que um invasor assuma o controle de roteadores e pontos de acesso sem saber a senha da rede e sem passar por uma etapa de autenticação. Basta que ele esteja dentro do alcance do sinal sem fio do aparelho.

O problema foi divulgado em 16 de outubro pelo pesquisador de segurança Quentin Kaiser. Durante os testes, ele explorou a falha em equipamentos usados por operadoras belgas, recuperou senhas de redes Wi-Fi e obteve acesso remoto a roteadores. Até o momento da divulgação, a vulnerabilidade não tinha identificador CVE, correção amplamente disponibilizada ou relatos conhecidos de exploração em ataques reais.

A brecha está no modo como uma implementação da Broadcom processa mensagens do WPS, recurso criado para facilitar a conexão de dispositivos a uma rede sem a necessidade de digitar a senha. Mensagens especialmente construídas e fragmentadas podem provocar corrupção de memória no roteador. A partir daí, o pesquisador desenvolveu métodos para ler informações armazenadas no aparelho e executar código com privilégios de administrador, também chamados de root.

Em um Askey TCG3000 fornecido pela Orange Belgium, Kaiser conseguiu extrair a chave da rede sem fio, conhecida como PSK, e transmiti-la pelo sinal Wi-Fi. Com a senha em mãos, foi possível conectar-se à rede. Em outro teste, realizado no BBOX3V+, da Sagemcom e distribuído pela Proximus, a falha abriu uma reverse shell: uma linha de comando remota que permite controlar o equipamento. Nesse caso, a comunicação ocorreu por meio de quadros Wi-Fi, sem depender de um servidor externo.

Os testes foram feitos sem autenticação. Segundo o pesquisador, o ataque pode ser realizado a uma distância considerável, desde que o invasor consiga alcançar o sinal do roteador. Isso não significa que qualquer pessoa conectada à internet possa explorar a falha remotamente: a proximidade física e o alcance da rede sem fio são fatores importantes.

A implementação vulnerável da Broadcom foi incorporada a produtos de diferentes fabricantes. Kaiser estima que milhões de roteadores e pontos de acesso possam estar expostos. Entre as famílias de chipsets identificadas estão BCM3380, BCM3383 e BCM33834, associadas a equipamentos antigos que usam o sistema eCos, e BCM3390, BCM65xx e BCM68xx, presentes em modelos mais recentes baseados em Linux.

A situação pode variar conforme a geração do equipamento. Para os chips antigos com eCos, não havia uma correção funcional conhecida; por isso, Kaiser descreveu o problema como um “forever day”, isto é, uma falha com poucas chances de ser corrigida durante a vida útil do produto. Nos modelos baseados em Linux, uma solução poderia ser possível por meio da substituição do software que administra a conexão Wi-Fi.

A investigação confirmou a vulnerabilidade em roteadores usados por três das quatro principais operadoras da Bélgica: Proximus, Orange Belgium e VOO. Os equipamentos da Telenet não foram testados, portanto não houve confirmação sobre a exposição nesse caso. Uma lista mais ampla também cita dispositivos de empresas como Cisco, Huawei e ARRIS. Porém, ela inclui tanto modelos examinados quanto aparelhos considerados apenas potencialmente vulneráveis por verificações automatizadas.

As estimativas para a Bélgica apontam centenas de milhares de roteadores afetados por operadora, mas são aproximações, não uma contagem definitiva. O código vulnerável estaria presente no software da Broadcom desde pelo menos 2010. Kaiser afirma que a empresa forneceu uma correção incompleta em 2018 e depois recomendou a migração para outro pacote Wi-Fi, chamado hostapd. Nos modelos antigos baseados em eCos, porém, não teria sido disponibilizada uma solução eficaz.

Segundo o pesquisador, a Broadcom já tinha conhecimento do problema desde 2018, após notificações anteriores, mas não publicou um comunicado de segurança nem atribuiu um número CVE à falha. Kaiser avalia que a falta de divulgação pública pode ter contribuído para que fabricantes de roteadores não atualizassem seus produtos. O caso também foi encaminhado ao CERT Coordination Center, mas o processo foi encerrado no mesmo dia. De acordo com o pesquisador, a situação está relacionada ao fato de a Broadcom poder atribuir identificadores CVE às vulnerabilidades de seus próprios produtos.

Como verificar se o roteador pode estar vulnerável

O nome do fabricante, por si só, não confirma se um aparelho está exposto. Roteadores da mesma marca podem usar componentes e versões de software diferentes, e muitas operadoras distribuem modelos personalizados. Para uma primeira checagem, consulte a etiqueta do equipamento ou a página de administração e anote o fabricante, o modelo e a versão do firmware.

Em seguida, verifique se há uma atualização disponível na página de suporte do fabricante ou junto à operadora que forneceu o roteador. Como a brecha pode estar em componentes internos do Wi-Fi, uma atualização comum do sistema nem sempre é suficiente. Se não houver informação clara sobre a correção, peça à operadora que confirme se o modelo foi afetado e se existe uma atualização específica.

Enquanto aguarda uma resposta, desative o WPS, caso o roteador ofereça essa opção. Essa medida reduz a exposição do recurso implicado na falha, embora não substitua a instalação de uma correção e não garanta, por si só, que todo o software vulnerável deixou de estar acessível.

Também é recomendável usar uma senha forte e exclusiva para a rede sem fio, alterar a senha de administração do roteador e instalar atualizações oficiais assim que forem disponibilizadas. Evite modificar o firmware com arquivos de origem desconhecida: um pacote incorreto pode inutilizar o aparelho ou introduzir novos riscos.

Se o equipamento for antigo, não receber mais atualizações ou estiver baseado em uma das famílias de chipsets sem correção funcional, a alternativa mais segura pode ser substituí-lo por um modelo mantido pelo fabricante ou pela operadora. Após a troca, configure uma nova senha para o Wi-Fi e para o painel administrativo e confira se o WPS está desativado.