Cibercriminosos ampliam ataques ao macOS com infostealers multiplataforma
A sensação de que “Mac é mais seguro” continua muito presente entre usuários, mas já não corresponde à realidade. A Microsoft emitiu um alerta recente apontando um crescimento consistente de ataques direcionados ao macOS por meio de infostealers – uma categoria de malware criada especificamente para capturar dados sensíveis, como logins, senhas, tokens de sessão e informações armazenadas em navegadores e aplicativos.
O que chama atenção é a mudança de foco dos criminosos. Antes, a maior parte dos infostealers era desenvolvida para Windows. Agora, esses códigos maliciosos estão sendo reescritos em linguagens como Python, o que permite que funcionem com facilidade em diferentes sistemas operacionais, inclusive no macOS. Essa abordagem torna as campanhas mais baratas de manter, mais fáceis de adaptar e muito mais escaláveis.
Como os ataques chegam ao usuário de Mac
De acordo com a Microsoft, os cibercriminosos estão explorando sobretudo instaladores falsos de aplicativos populares. Esses instaladores são divulgados por meio de anúncios maliciosos em plataformas legítimas, como campanhas enganosas veiculadas em mecanismos de busca. O usuário pesquisa por um software conhecido, encontra um anúncio aparentemente confiável e termina redirecionado para uma página fraudulenta que imita o site oficial.
Nessas campanhas foram identificados principalmente três infostealers voltados ao macOS: Atomic macOS Stealer (AMOS), MacStealer e DigitStealer. Eles são distribuídos como arquivos no formato DMG, o tipo de imagem de disco nativo do macOS. Visualmente, esses instaladores costumam parecer legítimos, com ícones bem-feitos e textos que reproduzem com precisão o estilo do software original, o que reduz a desconfiança da vítima.
Ao abrir o DMG e executar o instalador, scripts em Python são disparados em segundo plano para instalar o infostealer sem chamar atenção. O usuário acredita estar apenas concluindo a instalação de um aplicativo comum, enquanto, de forma silenciosa, o malware é configurado para roubar e enviar dados para os operadores do ataque.
O que esses infostealers conseguem acessar
A capacidade de coleta de informações dessas famílias de malware é ampla. Entre os alvos principais estão:
– dados armazenados no iCloud Keychain, incluindo senhas e cartões;
– credenciais salvas em navegadores, como logins de e-mail, redes sociais e serviços corporativos;
– informações de aplicativos de desenvolvimento, como tokens de acesso a repositórios de código e serviços em nuvem;
– carteiras digitais, chaves e senhas usadas em serviços financeiros e criptomoedas;
– tokens de autenticação de múltiplo fator, permitindo que criminosos invadam contas mesmo sem possuir a senha principal recém-inserida.
O roubo de tokens e sessões autenticadas é especialmente perigoso, porque permite que o invasor assuma a conta da vítima sem acionar, muitas vezes, alertas de segurança ou pedidos de nova autenticação.
Engenharia social e a técnica ClickFix
Para aumentar a taxa de sucesso, os criminosos têm combinado malware com estratégias sofisticadas de engenharia social. Além dos sites falsos que imitam páginas de softwares famosos, surge com força a técnica chamada de ClickFix.
No ClickFix, a vítima é levada a acreditar que existe um problema urgente no sistema ou no aplicativo: uma falha de compatibilidade, um erro de segurança ou um componente desatualizado. Em seguida, a página oferece um “ajuste rápido” ou “correção recomendada” com um grande botão para o usuário clicar. Esse suposto conserto é, na verdade, o instalador do infostealer.
Essa abordagem explora o comportamento comum de quem quer “resolver logo” o problema, especialmente em ambientes de trabalho sob pressão. Como a interface parece legítima e o discurso é técnico, muitos usuários clicam sem verificar a origem do arquivo ou do instalador.
Python como motor dos novos ataques
O uso de Python no desenvolvimento desses infostealers é um fator central na expansão das campanhas. Por ser uma linguagem amplamente difundida, com bibliotecas prontas para comunicação com a internet, criptografia e manipulação de dados, ela reduz a barreira técnica para a criação de malwares.
Além disso, um mesmo código escrito em Python pode ser facilmente empacotado e adaptado para rodar em diferentes plataformas, como macOS, Windows e Linux. Isso permite que grupos criminosos reutilizem grande parte da base de código, mudando apenas detalhes específicos de cada sistema operacional. O resultado é uma explosão de variantes, lançadas em ritmo muito mais rápido do que as empresas e usuários conseguem acompanhar.
Outro ponto importante é que muitos profissionais de tecnologia utilizam Python no dia a dia, o que faz com que scripts nessa linguagem pareçam menos suspeitos em ambientes de desenvolvimento. Em cenários onde a segurança não é tratada com rigor, isso abre espaço para que arquivos maliciosos se misturem a rotinas legítimas.
Por que o macOS virou alvo mais atrativo
Durante anos, a percepção de que o macOS era mais seguro acabou gerando um efeito colateral perigoso: muitos usuários de Mac relaxaram práticas de segurança básica, acreditando que ataques eram “coisa de Windows”. Cibercriminosos se aproveitaram justamente dessa confiança excessiva.
Hoje, o macOS está fortemente presente em ambientes corporativos, especialmente entre desenvolvedores, designers, profissionais de TI e executivos. Isso transforma a plataforma em um alvo de alto valor. Roubar credenciais desses usuários significa potencialmente acessar repositórios de código, painéis de administração de nuvem, contas de e-mail corporativas, sistemas financeiros e dados de clientes.
Além disso, dispositivos Apple são com frequência usados como equipamentos pessoais e de trabalho ao mesmo tempo, o que mistura dados privados e corporativos. Um infostealer que compromete o macOS de um colaborador pode abrir portas para ataques maiores contra toda a organização.
Riscos ampliados pela integração de IA no desenvolvimento
A aceleração do desenvolvimento de software com uso de inteligência artificial também traz riscos adicionais. Ferramentas de IA vêm sendo usadas para gerar trechos de código, automatizar pipelines de build e até sugerir dependências. Em ambientes sem governança de segurança madura, isso pode favorecer a inclusão inadvertida de bibliotecas maliciosas ou scripts alterados.
Cibercriminosos também podem utilizar IA para:
– automatizar a criação de páginas falsas ainda mais convincentes;
– personalizar mensagens de engenharia social de acordo com o perfil da vítima;
– adaptar rapidamente o malware para contornar novas defesas.
Esse cenário reforça a necessidade de tratar segurança como requisito central em todo o ciclo de desenvolvimento, e não como um complemento de última hora.
Importância de pentests e validação de software
Uma das medidas mais negligenciadas por empresas é a realização de testes de intrusão (pentests) e avaliações de segurança antes da contratação ou integração de novos softwares. Em um contexto onde instaladores falsos se passam por aplicativos legítimos, pentests e auditorias de código tornam-se essenciais para:
– verificar se o software adquirido se comunica apenas com servidores esperados;
– identificar comportamentos anômalos em instaladores e atualizadores;
– validar assinaturas digitais e cadeias de certificação de fornecedores;
– testar a resiliência da infraestrutura contra infostealers e malwares similares.
Sem esse tipo de verificação prévia, organizações se expõem a riscos desnecessários, especialmente ao adotar ferramentas de terceiros em áreas críticas como desenvolvimento, finanças e gestão de identidade.
Lacunas regulatórias e responsabilidade por incidentes
No caso específico de infraestruturas críticas e serviços essenciais, a ausência de um marco robusto de responsabilização por incidentes cibernéticos agrava ainda mais o problema. Sem regras claras sobre deveres de proteção, notificações obrigatórias e consequências para negligência, muitas organizações postergam investimentos em segurança, inclusive em camadas específicas de proteção para endpoints macOS.
Essa falta de clareza regulatória acaba jogando todo o peso da proteção nas mãos de equipes técnicas e usuários finais, ao invés de criar um ambiente em que segurança seja exigência estrutural dos provedores, integradores e desenvolvedores de software.
Como se proteger de infostealers no macOS
Usuários e empresas podem reduzir significativamente o risco seguindo um conjunto de boas práticas:
1. Baixar softwares apenas de fontes oficiais
Priorize a App Store ou o site oficial do fabricante. Evite clicar em anúncios para obter instaladores, mesmo que pareçam confiáveis.
2. Verificar a assinatura do desenvolvedor
Antes de instalar, confirme se o aplicativo é assinado por um desenvolvedor reconhecido e, sempre que possível, confira o nome exibido pelo sistema.
3. Desconfiar de “correções urgentes” e pop-ups
Mensagens que pedem instalação imediata de “ajustes” ou “fixes” devem ser analisadas com muito cuidado. Em caso de dúvida, feche a janela e vá diretamente às configurações do sistema ou ao site oficial do software.
4. Manter o macOS e aplicativos atualizados
Atualizações frequentes corrigem vulnerabilidades exploradas por malwares, além de melhorar mecanismos nativos de detecção.
5. Usar soluções de segurança compatíveis com macOS
Adotar ferramentas de segurança que monitorem comportamento suspeito, tentativas de exfiltração de dados e execução de scripts não autorizados é crucial, sobretudo em ambientes corporativos.
6. Segregar ambientes pessoais e corporativos
Quando possível, evite misturar dados sensíveis de trabalho com uso pessoal no mesmo dispositivo. Em empresas, políticas de BYOD (traga seu próprio dispositivo) devem ser acompanhadas de controles rigorosos.
7. Educar usuários sobre engenharia social
Treinamentos regulares sobre golpes digitais, páginas falsas, anúncios maliciosos e técnicas como ClickFix aumentam a capacidade de identificação precoce de ameaças.
Segurança de macOS não é automática
O macOS traz proteções nativas importantes, mas elas não são um escudo absoluto. A evolução de infostealers como AMOS, MacStealer e DigitStealer mostra que cibercriminosos estão dispostos a investir tempo e recursos para explorar qualquer brecha de comportamento humano e de tecnologia.
Tratar computadores Apple como “naturalmente imunizados” contra malware é um erro estratégico. A combinação de engenharia social sofisticada, linguagens multiplataforma como Python e campanhas de anúncios maliciosos transforma o ecossistema macOS em um campo fértil para ataques silenciosos e de alto impacto.
A resposta passa por uma mudança de mentalidade: segurança precisa ser cobrada de fornecedores, incorporada ao desenvolvimento de software, exigida em contratos, testada por meio de pentests e praticada no dia a dia por usuários. Só assim será possível reduzir o espaço de atuação dos infostealers e proteger de forma efetiva dados pessoais, corporativos e críticos que hoje circulam pelos dispositivos da Apple.