Brasil promove primeiro exercício de defesa cibernética entre Exércitos da América do Sul
Brasília foi palco do primeiro Exercício de Defesa Cibernética da Rede de Cooperação entre Exércitos Sul-Americanos (RECESA). A iniciativa reuniu representantes militares para comparar métodos de prevenção e resposta a incidentes digitais que possam afetar sistemas de comando, redes de comunicação e infraestruturas essenciais.
Realizada até 21 de agosto, a atividade foi conduzida pelo Estado-Maior do Exército e executada pelo Comando de Defesa Cibernética. Os participantes trabalharam com Problemas Cibernéticos Simulados (PCS), desenvolvidos para reproduzir situações capazes de exigir decisões coordenadas nos níveis político, estratégico e operacional.
A cerimônia de abertura ocorreu no Auditório Marcelo Rufino, localizado no Quartel-General do Exército. O evento contou com a presença do comandante de Defesa Cibernética, General de Divisão Jacy Barbosa Júnior, além de outras autoridades militares. Na ocasião, foram explicadas as responsabilidades do setor cibernético dentro da estrutura de Defesa e apresentados os procedimentos previstos para as atividades realizadas no Forte Rondon.
Cenários simulados reproduzem ameaças atuais
Durante o exercício, as delegações receberam cenários baseados em ameaças que já fazem parte da realidade da segurança digital. Entre as situações avaliadas estavam operações de espionagem, emprego de ferramentas de inteligência artificial e tentativas de invasão ou comprometimento de serviços essenciais.
A proposta não era apenas testar conhecimentos técnicos. Os participantes também precisaram avaliar os efeitos que um incidente digital poderia provocar em diferentes esferas de decisão. Um ataque contra uma rede militar, por exemplo, pode gerar consequências que ultrapassam o ambiente tecnológico e alcançar áreas políticas, econômicas, sociais e estratégicas.
Ao analisar os mesmos problemas, cada país teve a oportunidade de apresentar seus próprios procedimentos de resposta. A comparação permitiu identificar diferenças entre doutrinas, rotinas operacionais, estruturas de comando e critérios utilizados para classificar e tratar uma ameaça.
Outro benefício foi o compartilhamento de experiências práticas. Em um ambiente controlado, os militares puderam discutir dificuldades comuns, avaliar alternativas e observar como outras forças organizam equipes, distribuem responsabilidades e estabelecem prioridades durante uma crise cibernética.
Cooperação regional ganha importância
No encerramento, as delegações ficaram encarregadas de documentar os procedimentos e as rotinas observados ao longo da atividade. Esse material poderá servir como referência para aperfeiçoar futuras ações conjuntas e facilitar a comunicação entre os países participantes.
Criada em 2023, a RECESA foi estruturada como um espaço permanente de diálogo e cooperação entre os Exércitos da América do Sul. O encontro realizado no Brasil foi a primeira atividade da rede dedicada exclusivamente à defesa cibernética, aproximando instituições que enfrentam riscos tecnológicos semelhantes.
Para o General Jacy Barbosa Júnior, o intercâmbio permite compreender melhor as necessidades de cada país, ampliar a troca de informações e elevar a capacidade coletiva de resposta a incidentes. A cooperação também ajuda a criar uma linguagem comum entre as forças militares, aspecto fundamental quando uma crise envolve redes ou serviços que se conectam além das fronteiras nacionais.
Representantes da Colômbia e do Uruguai acompanharam as atividades. A Coronel Milena Realpe, do Exército colombiano, e o Coronel Rahi, do Exército uruguaio, ressaltaram o valor do contato direto entre especialistas e a necessidade de manter canais institucionais ativos para situações de emergência.
Defesa cibernética integra a modernização militar
A realização do exercício ocorre em um período de crescente dependência de sistemas digitais. Operações militares modernas utilizam redes de comunicação, plataformas de comando e controle, sistemas de geolocalização, bancos de dados e recursos automatizados. Qualquer interrupção ou manipulação dessas ferramentas pode comprometer decisões e reduzir a capacidade de resposta.
No Exército Brasileiro, a defesa cibernética faz parte do processo de modernização da Força Terrestre previsto na Força 40. A área também está relacionada ao conceito de operações multidomínio, que considera o ambiente digital um espaço operacional tão relevante quanto os ambientes terrestre, marítimo, aéreo e espacial.
Nesse contexto, proteger sistemas de comando e controle é apenas uma das tarefas. Também são necessárias medidas para resguardar infraestruturas críticas, detectar movimentações suspeitas, acompanhar grupos maliciosos, preservar dados e combater campanhas de desinformação capazes de influenciar decisões ou gerar instabilidade.
A proteção de infraestruturas críticas exige atenção especial porque setores como energia, telecomunicações, transporte, abastecimento e serviços públicos dependem de redes interligadas. Uma falha provocada em um país pode produzir efeitos indiretos em outras nações, especialmente quando existem fornecedores, sistemas ou rotas de comunicação compartilhados.
Exercícios ajudam a preparar respostas reais
Simulações como a realizada em Brasília não substituem operações reais, mas permitem testar planos sem colocar serviços ou informações verdadeiras em risco. Elas também revelam falhas que, em uma situação concreta, poderiam atrasar a identificação da ameaça ou dificultar a tomada de decisões.
Outro aspecto importante é a definição prévia de responsabilidades. Em uma crise cibernética, diferentes órgãos podem precisar atuar simultaneamente. Saber quem deve comunicar o incidente, quais informações podem ser compartilhadas e quais medidas devem ser adotadas reduz o tempo de resposta e evita ações conflitantes.
A padronização de procedimentos também favorece a interoperabilidade. Mesmo que cada país mantenha sua própria legislação, estrutura militar e doutrina, conceitos básicos semelhantes facilitam o entendimento entre equipes técnicas e comandantes.
Além da reação imediata, a defesa cibernética envolve prevenção e recuperação. É necessário identificar vulnerabilidades, manter sistemas atualizados, realizar cópias de segurança, treinar profissionais e estabelecer planos para restaurar serviços depois de um ataque.
O uso de inteligência artificial acrescenta novos desafios. A tecnologia pode auxiliar na detecção de padrões e na análise de grandes volumes de dados, mas também pode ser empregada por adversários para automatizar invasões, produzir conteúdos falsos e aperfeiçoar campanhas de manipulação. Por isso, seu uso exige critérios de segurança, supervisão humana e avaliação permanente dos riscos.
Ao reunir militares sul-americanos em torno de problemas comuns, a RECESA contribui para transformar a cooperação em uma prática concreta. O exercício não envolveu uma operação digital real, mas criou um ambiente seguro para testar conhecimentos, comparar estratégias e fortalecer os canais de comunicação que poderão ser decisivos diante de futuros incidentes.
A iniciativa brasileira demonstra que a defesa cibernética deixou de ser uma preocupação restrita aos especialistas em tecnologia. Ela passou a ocupar posição central no planejamento militar e na proteção da soberania, exigindo integração entre instituições, intercâmbio internacional e preparação contínua.
