Evento online e gratuito reúne especialistas para expor riscos dos golpes multicanais
Em um cenário em que ataques digitais se sofisticam a cada dia, um tipo específico de fraude começa a chamar mais atenção de empresas e usuários: os golpes multicanais, também conhecidos como golpes omnichannel. Em vez de depender de uma única mensagem suspeita por e-mail ou SMS, criminosos digitais passaram a combinar diferentes meios de contato – como WhatsApp, telefone, redes sociais, e até formulários em sites – para criar uma narrativa coerente, convincente e muito mais difícil de ser identificada como falsa.
Se antes um treinamento básico em segurança digital já ajudava boa parte dos internautas a reconhecer armadilhas simples de phishing ou smishing, hoje esse preparo já não é suficiente. A tradicional recomendação de “desconfiar de links estranhos” continua válida, mas perde força diante de fraudes que constroem confiança em etapas, usando múltiplos canais e uma sequência de interações planejadas para quebrar resistências psicológicas. É exatamente esse fenômeno que será debatido na 3ª edição do Painel Eskive sobre crimes cibernéticos, evento online e gratuito voltado à conscientização em segurança da informação.
Foco nas fraudes omnichannel: uma nova camada de risco
As chamadas fraudes omnichannel são estruturadas para parecerem extremamente legítimas. Um exemplo comum é o golpe em que a vítima recebe primeiro um e-mail aparentemente oficial, em seguida uma mensagem em aplicativo de conversas “confirmando” a comunicação anterior, e, por fim, uma ligação de alguém se passando por atendente de suporte. Ao somar esses pontos de contato, os criminosos criam uma sensação de autenticidade quase inquestionável.
Esse tipo de abordagem tira proveito justamente de algo que muitos treinamentos tradicionais não enfatizam: a análise do contexto como um todo. O usuário até pode desconfiar de um SMS isolado, mas quando recebe, em sequência, uma mensagem que “bate” com seus dados, seguida de uma ligação cordial que usa informações corretas, tende a baixar a guarda. A engenharia social, nesse caso, não se dá em um único disparo, e sim em uma campanha articulada que explora o comportamento humano em vários níveis.
Painel Eskive: especialistas em risco humano e cibercrime em debate
A Eskive, empresa brasileira especializada em gestão de risco humano, organiza o 3º Painel Eskive | Cibercrime e os Golpes Omnichannel com o objetivo de colocar holofotes sobre essa nova geração de fraudes. Totalmente online e gratuito, o encontro reunirá profissionais que lidam diariamente com ameaças digitais, trazendo visões complementares – tanto do ponto de vista corporativo quanto da investigação criminal.
A mediação ficará a cargo de Priscila Meyer, CEO da Eskive e referência em programas de conscientização e gestão do risco humano. Ao conduzir o debate, Meyer pretende traduzir a complexidade técnica dos golpes multicanais para uma linguagem acessível, sem perder de vista o impacto direto desses ataques na rotina de empresas e indivíduos.
Participações de peso: inteligência de ameaças e investigação policial
Entre os convidados, está Thiago Bordini, profissional com mais de duas décadas de experiência em cyber threat intelligence. Sua participação tende a aprofundar o entendimento sobre como grupos criminosos planejam, estruturam e executam campanhas de golpes omnichannel, qual o perfil dos alvos mais visados e como esses ataques se conectam a um ecossistema maior de cibercrime.
Outro nome de destaque é o de Elias Edenis, investigador de cibercrimes na Polícia Civil de Santa Catarina e professor na ACADEPOL/SC. Ele trará a perspectiva da aplicação da lei: como esses golpes chegam às delegacias, quais são as dificuldades de rastrear quadrilhas que atuam em múltiplos canais, e de que forma vítimas e empresas podem colaborar para fortalecer as investigações e aumentar a responsabilização dos autores.
Assim como nas edições anteriores do painel, o público poderá interagir em tempo real com os especialistas, enviando perguntas que serão respondidas ao vivo e participando de quizzes voltados a testar o nível de atenção e conhecimento sobre golpes de engenharia social. Esse formato dinâmico ajuda a transformar conteúdo técnico em aprendizado prático.
Golpes multicanais: por que exigem um novo tipo de conscientização
Para Priscila Meyer, o tema precisa ganhar espaço urgente nas discussões sobre conscientização em cibersegurança. Muitas campanhas atuais ainda treinam colaboradores e usuários para reagirem a uma abordagem isolada: um único e-mail suspeito, uma única ligação pressionando por dados, uma única mensagem pedindo clique em link duvidoso.
Nos golpes omnichannel, porém, a estratégia criminosa é exatamente a de diluir a desconfiança. O contato inicial pode ser inofensivo, sem pedir nenhuma informação crítica. Em uma segunda etapa, um novo canal reforça a narrativa, trazendo dados aparentemente legítimos ou referências a eventos reais da vida da vítima. Até que, em um terceiro momento, vem o pedido principal – seja uma transferência bancária, o envio de códigos de autenticação ou o fornecimento de credenciais de acesso.
Meyer ressalta ainda que a Eskive vem conduzindo simulações com clientes reais, testando cenários multicanais e analisando a reação dos usuários. Os resultados têm mostrado, na prática, como esse tipo de golpe é eficaz em manipular o comportamento humano, mesmo entre pessoas que já receberam treinamentos anteriores em segurança digital. Ao reproduzir esse tipo de ataque em ambiente controlado, a empresa consegue extrair insights valiosos sobre os pontos de falha mais comuns e como corrigi-los.
Exemplos de golpes omnichannel no dia a dia
Embora cada campanha criminosa tenha suas particularidades, alguns padrões vêm se tornando recorrentes:
– Golpe do suporte bancário multicanal: o usuário recebe uma notificação por e-mail sobre uma suposta tentativa de acesso suspeito à sua conta. Logo depois, chega uma mensagem em aplicativo de conversas, batendo com o texto do e-mail e oferecendo ajuda. Em seguida, uma ligação “do banco” orienta a instalar um aplicativo ou compartilhar códigos de autenticação, supostamente para “bloquear o acesso indevido”.
– Falso atendimento de serviços digitais: primeiro, um anúncio em rede social convida a atualizar um cadastro. Depois, um e-mail de “confirmação” é enviado, reforçando a mensagem do anúncio. Mais tarde, um atendente falso entra em contato por telefone para “verificar dados”, pedindo informações sensíveis sob o argumento de proteger a conta.
– Golpes contra empresas e executivos: quadrilhas reúnem dados públicos sobre diretores e gestores, fazem contato inicial por e-mail corporativo clonado e, em seguida, usam telefonemas e mensagens em aplicativos para pressionar por transferências urgentes, alegando oportunidades únicas ou riscos reputacionais.
Entender esses cenários ajuda empresas e usuários finais a reconhecer padrões de manipulação, mesmo quando o contexto parece muito convincente.
Desafios para as empresas: do treinamento pontual à cultura de segurança
Um dos pontos centrais discutidos por especialistas é que, diante dos golpes multicanais, não basta investir em ferramentas tecnológicas – como filtros de e-mail, soluções de antivírus ou autenticação em dois fatores. Embora esses recursos sejam indispensáveis, eles não conseguem bloquear a camada mais sutil do ataque: a persuasão psicológica.
Empresas precisam evoluir seus programas de conscientização, substituindo apresentações teóricas esporádicas por ações contínuas, dinâmicas e adaptadas ao comportamento real dos colaboradores. Isso inclui simulações periódicas de ataques omnichannel, campanhas interativas, análise de erros cometidos em ambiente controlado e feedbacks individualizados. Quanto mais próximo da realidade for o treinamento, maiores as chances de que as pessoas reconheçam um padrão de golpe quando ele aparecer fora do ambiente de teste.
Outro desafio é envolver a alta liderança. Golpes de engenharia social direcionados a executivos – muitas vezes chamados de ataques de “whaling” – são cada vez mais sofisticados e frequentemente exploram múltiplos canais. Se a diretoria não estiver engajada e consciente dos riscos, torna-se difícil sustentar uma cultura de segurança de ponta a ponta.
Papel do usuário: senso crítico em todos os canais
Do ponto de vista do usuário final, um dos aprendizados mais importantes é que a verificação de autenticidade não pode ficar presa a um único canal de confiança. O fato de uma mensagem ter chegado logo depois de uma ligação, ou de um atendente citar informações corretas, não significa que a comunicação seja legítima. Criminosos costumam usar dados vazados ou informações públicas para reforçar o poder de convencimento.
Algumas práticas podem aumentar a proteção:
– Confirmar, por canais oficiais e independentes, qualquer solicitação sensível recebida.
– Desconfiar de urgências exageradas, ameaças de bloqueio imediato ou promessas de ganhos fáceis.
– Evitar clicar em links que chegam por e-mail ou aplicativos de mensagens, preferindo acessar sites digitando o endereço diretamente.
– Nunca compartilhar senhas, códigos de autenticação ou dados confidenciais por telefone ou aplicativos, mesmo que a pessoa pareça muito convincente.
Ao adotar esse comportamento em todos os canais, o usuário reduz a eficácia da abordagem multicanal planejada pelos criminosos.
Investigações e responsabilização: o olhar da Polícia Civil
A presença de um investigador de cibercrimes no painel traz uma dimensão importante ao debate: a de que golpes omnichannel também deixam rastros – embora sejam mais complexos de acompanhar. Conforme explica Elias Edenis, muitos casos só chegam à polícia quando o prejuízo já é alto e diversas interações entre criminosos e vítimas aconteceram em canais diferentes, muitas vezes sem registro adequado.
Por isso, é fundamental que pessoas e empresas preservem evidências: prints de conversas, e-mails completos com cabeçalhos, registros de chamadas e qualquer outro dado que ajude a reconstruir o passo a passo da fraude. Quanto mais detalhado for esse histórico, maiores as chances de conectar ataques a grupos organizados, identificar padrões de atuação e, eventualmente, responsabilizar os autores.
Eventos como o painel contribuem para aproximar o universo corporativo do trabalho investigativo, mostrando que a cooperação entre empresas, especialistas em SI e forças de segurança é decisiva para combater o avanço dos golpes multicanais.
Por que discutir golpes omnichannel agora
O 3º Painel Eskive | Cibercrime e os Golpes Omnichannel será realizado em 18 de agosto, às 11h, em formato totalmente online. Mais do que um encontro pontual, o evento se insere em um movimento amplo de atualização das estratégias de conscientização em cibersegurança.
À medida que criminosos passam a integrar e-mail, telefone, aplicativos de mensagens, redes sociais e outros pontos de contato em suas campanhas fraudulentas, também a defesa precisa se tornar integrada. Isso significa alinhar tecnologia, processos, treinamento contínuo e, principalmente, a compreensão profunda de como o comportamento humano pode ser explorado – e como pode ser fortalecido.
Ao reunir especialistas em risco humano, inteligência de ameaças e investigação policial, o painel se propõe a oferecer uma visão completa dos golpes multicanais, unindo teoria, casos reais e recomendações práticas para que executivos, profissionais de segurança e usuários em geral estejam melhor preparados para essa nova onda de armadilhas digitais.
