Metade da base de clientes da VMware já tem planos concretos para reduzir o uso das soluções da empresa até 2028. O dado, levantado pela consultoria independente Virtified, funciona como um termômetro de um incômodo crescente no mercado de virtualização corporativa e indica que a liderança histórica da VMware pode estar entrando em uma fase de desgaste estrutural.
No centro desse descontentamento está a estratégia da Broadcom, atual controladora da VMware. Desde a aquisição, a companhia passou a concentrar sua oferta principal em um pacote único de nuvem privada, o Cloud Foundation 9 (VCF 9). Em vez de permitir a contratação modular de produtos, a Broadcom vem direcionando clientes para um modelo de “bundle” completo, o que, segundo especialistas, reduz a flexibilidade de escolha e eleva os custos gerais de adoção.
Muitas empresas relatam que o VCF 9 é percebido como uma solução robusta, porém cara demais para o que de fato utilizam no dia a dia. O pacote agrega uma série de componentes e funcionalidades avançadas que nem sempre se encaixam na realidade operacional de organizações de médio porte ou de setores com margens apertadas. O resultado é um descompasso: paga-se por um conjunto amplo de ferramentas, enquanto apenas uma fração delas é realmente aproveitada.
Além da questão financeira, há críticas consistentes em relação à complexidade operacional do ecossistema do VCF 9. A integração de múltiplos recursos em um só pacote exige equipes mais especializadas, processos de gestão mais maduros e uma curva de aprendizado maior. Para times de TI já pressionados por demandas de segurança, compliance e transformação digital, essa sobrecarga pode se tornar um fator decisivo na busca por alternativas mais simples ou sob medida.
Diante desse contexto, diversas empresas iniciaram processos de revisão profunda de suas arquiteturas de virtualização. Em muitos casos, a estratégia tem sido de migração parcial: em vez de abandonar a VMware de maneira abrupta, as organizações começam a deslocar cargas específicas para outras plataformas, testando fornecedores concorrentes em ambientes controlados, como novos projetos, filiais ou workloads menos críticos.
Essa transição, porém, está longe de ser trivial. Um elemento que adiciona urgência aos planos de mudança é o cronograma de fim de suporte para versões mais antigas da VMware, como a linha 8.x, cuja descontinuação está prevista para outubro de 2027. Com esse prazo no horizonte, clientes precisam decidir se investem na atualização para o VCF 9 – aceitando o novo modelo comercial – ou se aceleram a adoção de alternativas para evitar ficar sem suporte oficial, o que impactaria diretamente segurança, conformidade e continuidade de negócios.
Outro ponto sensível citado por analistas é a política comercial adotada pela Broadcom no relacionamento com a base instalada. Há relatos de que clientes que manifestam intenção de reduzir seu parque VMware passam a enfrentar condições menos vantajosas, como diminuição de descontos historicamente concedidos ou a imposição de cobrança integral de licenças. Na prática, esse tipo de abordagem é visto por parte do mercado como uma tentativa de desincentivar a redução de uso por meio de pressão econômica.
Mesmo assim, o movimento de saída não é universal. Uma parcela importante dos clientes opta por continuar com a VMware, ainda que insatisfeita com a nova estratégia. Entre os motivos estão a ausência de alternativas consideradas maduras para determinados cenários, a forte dependência de integrações legadas, o alto custo e risco de migrações em ambientes complexos e a percepção de que uma troca de plataforma pode provocar indisponibilidades ou impactos operacionais significativos.
Ainda assim, a concorrência avança. Fabricantes como Nutanix, Microsoft e Red Hat vêm reduzindo, ano a ano, a distância tecnológica em relação à VMware. Soluções de hiperconvergência, plataformas de virtualização mais integradas à nuvem pública e ofertas baseadas em código aberto estão ganhando espaço em provas de conceito, pilotos e novos projetos, especialmente em organizações que já possuem uma estratégia clara de cloud híbrida ou multicloud.
Esse quadro revela uma possível reconfiguração do mercado de virtualização corporativa. Critérios que antes pesavam menos na decisão – como modelo de licenciamento, previsibilidade de custos, liberdade de escolha de componentes e flexibilidade de migração – passam a ter praticamente o mesmo peso que performance, confiabilidade e conjunto de funcionalidades. Em outras palavras, o pacote comercial e estratégico hoje influencia tanto quanto a tecnologia em si.
Para muitas empresas, o debate já não é apenas “qual é a melhor plataforma de virtualização?”, mas “qual é o ecossistema que nos garante autonomia, sustentabilidade financeira e possibilidade real de mudança no futuro?”. Nesse sentido, o movimento de reduzir dependência de um único fornecedor ganha força, seja por meio da adoção de soluções de múltiplos vendors, seja por iniciativas de modernização que trocam VMs tradicionais por contêineres e orquestração com plataformas como Kubernetes.
Outro desdobramento importante é o impacto direto na estratégia de segurança da informação. Ambientes virtualizados mais heterogêneos demandam controles de segurança padronizados, ferramentas capazes de operar em diferentes hipervisores e nuvens, além de políticas de gestão de vulnerabilidades e identidade que contemplem múltiplas plataformas. A decisão de permanecer ou sair da VMware, portanto, passa também por uma análise de riscos cibernéticos e de capacidade de governança em arquiteturas mais distribuídas.
No plano financeiro, o aumento de custos de licenciamento e suporte associado ao VCF 9 tem levado CIOs e CISOs a reavaliarem o TCO (custo total de propriedade) de seus ambientes. Em alguns casos, o cálculo mostra que a migração gradual para soluções concorrentes, ainda que envolva um investimento inicial relevante, pode se tornar mais vantajosa em três a cinco anos, especialmente para empresas com grande volume de hosts e VMs.
Já do ponto de vista operacional, as organizações que planejam reduzir o uso da VMware até 2028 tendem a seguir algumas linhas mestras: mapear cargas críticas e não críticas; priorizar a migração de aplicações menos sensíveis; adotar padrões de infraestrutura como código para facilitar portabilidade; e fortalecer a observabilidade para acompanhar o desempenho em ambientes híbridos durante a transição. Esse tipo de planejamento é fundamental para evitar interrupções e manter a experiência dos usuários finais.
Também ganha espaço a discussão sobre lock-in tecnológico. A concentração de recursos em um pacote fechado como o VCF 9 é percebida por parte do mercado como um aumento do vínculo com o fornecedor. Em reação, cresce o interesse por arquiteturas mais abertas, baseadas em padrões amplamente aceitos, APIs documentadas e possibilidade de substituição de componentes sem necessidade de grandes reescritas de aplicações ou reestruturações de datacenter.
Para os fabricantes concorrentes, o cenário atual representa uma janela de oportunidade rara. Com metade dos clientes da VMware declarando intenção de reduzir o uso até 2028, a pressão está não só sobre a Broadcom para ajustar sua abordagem, mas também sobre os demais players para provarem, na prática, que conseguem oferecer soluções equivalentes ou superiores em performance, segurança, suporte e custo total.
No horizonte de médio prazo, o que se desenha é um mercado de virtualização mais fragmentado, com múltiplos provedores dividindo o espaço antes dominado quase hegemonicamente pela VMware. Empresas que se anteciparem, construindo estratégias tecnológicas e de segurança alinhadas a essa nova realidade, tendem a chegar a 2028 em posição mais confortável, com maior poder de barganha, custos sob controle e menor dependência de decisões unilaterais de qualquer fornecedor.