Meta abriu uma nova frente na guerra contra golpes digitais e passou a acionar na Justiça anunciantes suspeitos no Brasil, China e Vietnã que usavam suas plataformas para enganar usuários com anúncios fraudulentos, em especial os chamados celeb-bait scams – campanhas que exploram rosto, voz e reputação de celebridades para dar aparência de credibilidade a produtos e investimentos falsos.
Como resposta imediata, a companhia bloqueou os principais canais financeiros utilizados pelos golpistas, suspendeu métodos de pagamento associados às campanhas, desativou contas de anúncios e derrubou domínios usados para redirecionar vítimas a páginas maliciosas. A medida mira tanto quem cria as fraudes quanto quem oferece serviços de suporte para driblar os controles internos da empresa.
Paralelamente às ações judiciais, a Meta encaminhou notificações extrajudiciais a oito consultores de marketing que anunciavam serviços voltados a “burlar o sistema” da plataforma. Entre as ofertas estavam promessas de “desbanir” contas bloqueadas, aluguel de perfis considerados confiáveis e técnicas para evitar que anúncios suspeitos fossem barrados pelos filtros automatizados. Esses intermediários funcionam como facilitadores do ecossistema de golpes, profissionalizando práticas ilegais.
No centro do processo estão, pelo menos, três anunciantes identificados como responsáveis por campanhas que exploravam indevidamente a imagem de celebridades – dois deles no Brasil e um na China. O objetivo era sempre o mesmo: aproveitar o reconhecimento público de figuras conhecidas para induzir usuários a clicar em anúncios, fornecer dados sensíveis e pagar por produtos ou serviços que não existiam ou não correspondiam ao prometido.
No Brasil, Vitor Lourenço de Souza e Milena Luciani Sanchez são acusados de usar imagens e áudios manipulados de pessoas famosas para promover supostos produtos de saúde. Os materiais, segundo a denúncia, exageravam resultados, utilizavam depoimentos falsos e apresentavam celebridades como se fossem embaixadores ou usuários satisfeitos, sem qualquer autorização. Em muitos casos, a associação com figuras públicas era integralmente fabricada com uso de edição avançada e recursos de voz sintética.
Também aparecem na ação as empresas B&B Suplementos e Cosméticos Ltda. (Brites Corp) e Brites Academia de Treinamento Ltda., além de Daniel de Brites Macieira Cordeiro e José Victor de Brites Chaves de Araújo. Eles são apontados como parte de uma estrutura organizada que usava imagens sintéticas de um médico amplamente conhecido para vender produtos sem registro em órgãos reguladores, bem como cursos que ensinavam passo a passo como replicar o mesmo modelo de fraude, multiplicando o alcance dos golpes.
Na China, a empresa Shenzhen Yunzheng Technology Co., Ltd é acusada de veicular anúncios com celebridades para atrair vítimas em diferentes países, entre eles Estados Unidos e Japão. Os anúncios direcionavam usuários para grupos de “investimentos exclusivos” que, na prática, funcionavam como esquemas fraudulentos de captação de recursos, sem transparência, sem lastro real e com forte indício de pirâmide financeira digital.
Para tentar conter esse tipo de abuso em escala global, a Meta afirma manter um programa específico de proteção a celebridades e figuras públicas. Segundo a empresa, mais de 500 mil perfis de alto risco já estão incluídos em sistemas de monitoramento reforçado, com filtros adicionais e processos de revisão voltados a identificar uso indevido de imagem, voz e nome em anúncios e páginas suspeitas.
Outro caso que motivou ação judicial envolve o anunciante vietnamita Lý Văn Lâm, acusado de recorrer a técnicas avançadas de cloaking. Esse método consiste em exibir uma versão “limpa” e aparentemente inofensiva do site para os sistemas de verificação da plataforma, enquanto o público real é direcionado para páginas repletas de conteúdo malicioso, formulários fraudulentos e mecanismos de captura de dados financeiros.
Nessa modalidade de golpe, os anúncios geralmente prometiam produtos de grandes marcas com descontos agressivos, condicionando a oferta ao preenchimento de pesquisas ou formulários rápidos. Após o clique, a vítima era levada a sites falsos que imitavam lojas oficiais, inseria dados de cartão de crédito para concluir a compra e nunca recebia a mercadoria. Em muitos casos, além da não entrega, eram incluídas cobranças recorrentes não autorizadas – a chamada fraude por assinatura, em que pequenas quantias são debitadas regularmente até que a vítima perceba.
A investida judicial ocorre em um contexto de forte pressão pública e regulatória. Meses antes, uma investigação jornalística havia mostrado que uma fatia relevante da receita publicitária da Meta na China vinha de anúncios associados a golpes financeiros, jogos ilegais, pornografia e outros conteúdos proibidos. A repercussão levou a empresa a revisar seu programa de parceria com agências e anunciantes de alto volume, reforçando a supervisão e aumentando critérios de elegibilidade.
Análises independentes também demonstram a dimensão do problema. Em um universo de 14,5 milhões de anúncios examinados em poucos dias na União Europeia e no Reino Unido, quase um terço continha links que levavam a golpes, páginas de phishing ou downloads de malware. Esse tipo de conteúdo gerou mais de 300 milhões de impressões em menos de um mês, o que evidencia a velocidade com que campanhas maliciosas podem se espalhar e o potencial de dano financeiro para usuários em escala global.
Outro dado alarmante é a concentração dessas atividades. Apenas dez anunciantes foram responsáveis por mais da metade dos anúncios fraudulentos identificados naquele recorte. Muitos deles utilizavam a mesma infraestrutura técnica e sistemas de pagamento conectados a China e Hong Kong, sinalizando a existência de operações estruturadas em nível industrial, com divisão de tarefas, fornecedores especializados e suporte tecnológico sofisticado.
Investigações recentes ajudam a desenhar o mapa desse ecossistema de fraudes digitais. Entre as práticas identificadas está a combinação de malvertising (anúncios maliciosos) com o modelo conhecido como “pig butchering”. Nesse esquema, as vítimas são abordadas por meio de supostos especialistas em investimentos, muitas vezes chatbots com uso intensivo de inteligência artificial, e convencidas a aportar valores crescentes em plataformas falsas. Quando tentam sacar o lucro, são pressionadas a pagar taxas adicionais para liberar fundos que, na verdade, nunca existiram. Mais de 23 mil domínios já foram vinculados a essa engrenagem.
Outra vertente dos golpes envolve o comprometimento de roteadores e a alteração de configurações de DNS para desviar, de forma seletiva, o tráfego direcionado a serviços autênticos – como plataformas de autenticação ou comércio eletrônico – para páginas clonadas. Assim, ainda que o usuário digite o endereço correto ou clique em um link legítimo, acaba em um site falso, preparado para roubar senhas, códigos de autenticação em dois fatores e dados de cartão.
Também foram identificadas redes de notificações push maliciosas, voltadas especialmente a usuários do navegador Chrome em dispositivos Android. Nesses casos, o golpe começa com um pedido aparentemente inofensivo de permissão para receber notificações. Depois de autorizado, o usuário passa a ser bombardeado por alertas de falsa infecção por malware ou avisos de segurança urgentes, que o direcionam a páginas de suporte técnico fraudulento ou a downloads de aplicativos maliciosos.
Completa esse cenário um conjunto de mais de 150 sites clonados que se apresentavam como escritórios de advocacia respeitáveis nos Estados Unidos e no Reino Unido. A promessa era ajudar vítimas de golpes anteriores a recuperar valores perdidos. Na prática, esses “serviços” exigiam novas transferências, supostas taxas processuais e honorários antecipados, transformando quem já havia sido enganado em alvo de um segundo golpe, ainda mais cruel.
O crescimento desse mercado é alimentado pelo modelo chamado de “pig butchering-as-a-service” (PBaaS). Em vez de um fraudador isolado, há plataformas inteiras que vendem pacotes prontos: scripts de conversa, painéis de controle para gerenciar vítimas, bases de dados de contatos, ferramentas de deepfake de voz e vídeo, além de suporte técnico para configurar cloaking, proxies e meios de pagamento anônimos. Para criminosos com pouco conhecimento técnico, torna-se fácil entrar nesse negócio com custos relativamente baixos.
O uso de imagens de celebridades e de figuras respeitadas, como médicos, economistas e apresentadores de TV, é um elemento central dessa engrenagem porque reduz a desconfiança inicial das vítimas. Deepfakes cada vez mais realistas ajudam a simular entrevistas, recomendações e depoimentos em vídeo com alto grau de verossimilhança. Sem mecanismos de autenticação visual e sem educação digital adequada, muitos usuários não conseguem distinguir o conteúdo real do falsificado.
Esses casos também colocam em debate a responsabilidade das grandes plataformas. Ao mesmo tempo em que lucram com anúncios, elas precisam demonstrar que investem em moderação, detecção de padrões suspeitos e resposta rápida a denúncias. Medidas como bloqueio de métodos de pagamento, ações judiciais contra grandes anunciantes fraudulentos e ampliação de programas de proteção de celebridades são passos importantes, mas ainda insuficientes diante da capacidade de adaptação dos criminosos.
Para os usuários, a principal defesa está na combinação de desconfiança saudável e verificação. Promessas de ganhos fáceis, produtos “milagrosos” ligados à saúde, investimentos com rentabilidade garantida e descontos extremos em marcas famosas são sinais de alerta. É fundamental conferir se o endereço do site é o oficial, buscar o produto diretamente em canais conhecidos, desconfiar de anúncios que envolvem figuras públicas em contextos estranhos e nunca informar dados de cartão ou senhas em páginas que chegaram por links suspeitos.
Do ponto de vista regulatório, cresce a pressão para que governos exijam mais transparência sobre quem está por trás das campanhas de anúncios pagos, especialmente quando há direcionamento para outros países. Exigências de verificação de identidade de anunciantes, rastreamento de fluxo de pagamentos e cooperação internacional entre autoridades de proteção de dados, bancárias e de segurança cibernética tendem a se intensificar nos próximos anos.
Para empresas legítimas que anunciam online, o avanço dos golpes também representa risco de dano reputacional. Marcas sérias têm visto seus logos e produtos associados a campanhas fraudulentas, o que obriga a investir mais em monitoramento de menções, registro de reclamações e comunicação clara com o público. Em muitos casos, é necessário acionar canais formais junto às plataformas para retirada urgente de anúncios falsos e perfis que se passam por representantes oficiais.
A mobilização judicial da Meta contra anunciantes do Brasil, China e Vietnã não elimina o problema, mas sinaliza uma mudança de postura: em vez de apenas remover conteúdo, a empresa busca atingir financeiramente e juridicamente as estruturas por trás dos golpes. O resultado prático dependerá da colaboração entre países, da velocidade dos processos e da capacidade de acompanhar a rápida evolução das táticas criminosas, que se alimentam de tecnologia, dados vazados e da vulnerabilidade digital de milhões de usuários.