Carros conectados compartilham dados pessoais com anunciantes e big techs, aponta estudo

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Carros conectados enviam dados pessoais a anunciantes e grandes empresas de tecnologia, revela estudo

Recursos como navegação, diagnóstico remoto e integração com aplicativos tornam os carros conectados mais convenientes. Mas essas funções também podem ampliar a coleta e a circulação de informações pessoais. Uma pesquisa realizada por acadêmicos da Northeastern University em parceria com a Consumer Reports identificou que montadoras compartilham dados de motoristas com empresas de publicidade, análise de dados, grandes plataformas digitais e intermediários conhecidos como data brokers.

Entre os 21 grandes fabricantes avaliados, 19 coletavam informações dos clientes e as distribuíam de forma ampla. O levantamento acompanhou caminhos possíveis para esses dados: eles podem sair do veículo, passar pelo aplicativo usado pelo proprietário e chegar a companhias externas envolvidas em publicidade ou análise de comportamento.

Dos 30 aplicativos de veículos conectados examinados, 28 enviaram informações a pelo menos uma empresa terceirizada de publicidade ou analytics. Em sete casos, os dados compartilhados incluíam elementos capazes de identificar diretamente uma pessoa, como nome, endereço de e-mail ou localização precisa.

O estudo também apontou o envio de números de identificação do veículo, conhecidos como VIN, associados a informações de localização ou e-mail. Isso foi observado nos aplicativos myCadillac, myChevrolet, myBuick e myGMC, da General Motors, e em apps ligados à Honda, à Nissan e à Lincoln.

O VIN identifica um veículo específico. Quando combinado com dados pessoais ou registros de localização, pode ajudar a relacionar deslocamentos a um motorista determinado. Essa associação pode revelar padrões de rotina e, segundo os pesquisadores, tornar as informações valiosas para intermediários de dados que as agregam e comercializam.

A General Motors já foi alvo de medidas regulatórias por causa do tratamento de informações de motoristas. Em maio, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, a California Privacy Protection Agency e quatro promotores locais aplicaram à empresa multas superiores a US$ 12 milhões. Também determinaram que ela suspendesse por cinco anos o compartilhamento de dados de condutores com agências de crédito e data brokers.

De acordo com o relatório da Consumer Reports, os dados também chegaram a empresas como Alphabet, controladora do Google, Amazon, Microsoft, Meta, Reddit e Pinterest. Algumas companhias podem desempenhar mais de uma função nesse circuito: fornecem ferramentas para coletar ou processar informações e, ao mesmo tempo, operam plataformas que permitem direcionar anúncios a públicos específicos.

Entre as montadoras citadas, a Honda foi a única a responder ao pedido de comentário mencionado na reportagem. A empresa afirmou que obtém dados relacionados aos clientes por diferentes meios, inclusive quando eles utilizam veículos com funções conectadas. Após ser informada sobre os resultados, pediu a um fornecedor de analytics e rastreamento que apagasse dados de localização coletados. Também declarou que não continuará compartilhando essas informações com terceiros.

Os pesquisadores identificaram outro possível ponto de coleta nos aplicativos. Links incorporados podem levar o usuário a páginas externas, nas quais empresas terceirizadas instalam cookies e pixels de rastreamento. Assim, a navegação pode gerar informações adicionais sem que o motorista perceba claramente quem está coletando os dados e para qual finalidade.

Algumas montadoras disseram que os destinatários estão sujeitos a contratos que os impedem de usar ou vender os dados por conta própria. As empresas também argumentam que certos compartilhamentos dependem da autorização do usuário. A Consumer Reports, no entanto, questiona se esse consentimento é realmente esclarecido: o motorista pode não entender o alcance das permissões e, em alguns casos, ser avisado de que determinados recursos deixarão de funcionar se recusar a coleta ou o compartilhamento.

Como reduzir a exposição dos seus dados

Quem possui um carro conectado pode começar revisando as configurações de privacidade do veículo e do aplicativo associado. Vale verificar quais permissões estão ativadas, especialmente as relacionadas à localização, aos contatos e ao uso de dados para publicidade ou análise. Quando houver opções separadas para cada finalidade, é preferível autorizar apenas o necessário para os recursos que serão utilizados.

Também é importante ler as políticas de privacidade antes de criar uma conta ou ativar serviços conectados. Procure informações sobre quais dados são coletados, por quanto tempo ficam armazenados, com quem podem ser compartilhados e como solicitar acesso ou exclusão. As regras e opções disponíveis variam conforme a montadora e o serviço.

A localização merece atenção especial. Funções como assistência em emergências, busca do veículo e navegação podem depender dela, mas isso não significa que todos os serviços precisem de acesso contínuo. Quando possível, limite a permissão ao período de uso do aplicativo e desative recursos que não sejam necessários.

Outra medida é revisar periodicamente os dispositivos e usuários autorizados a acessar o carro. Ao vender ou devolver um veículo, o proprietário deve remover suas contas, desvincular o aplicativo e apagar dados pessoais armazenados no sistema multimídia, seguindo as instruções do fabricante. Isso ajuda a evitar que informações de um antigo usuário permaneçam associadas ao automóvel.

O levantamento reforça que a privacidade automotiva não depende apenas do que acontece dentro do carro. Aplicativos, fornecedores de tecnologia e plataformas de publicidade também podem participar do fluxo de informações. Por isso, compreender as permissões e questionar a necessidade de cada compartilhamento é uma forma prática de reduzir a exposição, embora não elimine todos os riscos.