Spyware Pegasus volta a ser usado em campanha de vigilância na Sérvia
Um integrante do movimento estudantil da Sérvia teve o iPhone comprometido pelo spyware Pegasus em um ataque realizado sem qualquer interação do usuário. A infecção ocorreu por meio de uma vulnerabilidade do tipo *zero-click* no iMessage, recurso que permite a exploração do aparelho sem que a vítima precise abrir mensagens, clicar em links ou baixar arquivos.
O caso foi identificado pelo Citizen Lab em conjunto com a SHARE Foundation. Segundo a análise técnica, os sinais de comprometimento foram registrados entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Depois da possível infecção, a Apple enviou ao usuário um alerta informando que ele poderia ter sido alvo de uma operação conduzida com spyware mercenário.
Ataque silencioso explorou o iMessage
De acordo com os pesquisadores, a falha estava relacionada ao sistema de processamento do iMessage. O mecanismo permitia que um conteúdo especialmente preparado fosse enviado ao dispositivo e processado automaticamente pelo sistema. A partir dessa etapa, o Pegasus poderia ser instalado sem apresentar sinais evidentes ao proprietário do iPhone.
Ataques *zero-click* são considerados especialmente perigosos porque eliminam uma das principais barreiras de segurança: a necessidade de convencer a vítima a realizar alguma ação. Em campanhas tradicionais, o criminoso depende de um clique, da abertura de um anexo ou da instalação de um aplicativo. Nesse tipo de exploração, porém, o usuário pode permanecer completamente passivo.
Depois de instalado, o Pegasus pode oferecer aos operadores acesso amplo ao conteúdo do aparelho. Entre os dados potencialmente expostos estão fotos, conversas, notas, documentos, arquivos armazenados e informações de aplicativos. Dependendo da configuração e dos recursos utilizados na operação, o spyware também pode coletar dados de localização e registros de comunicação.
Outro aspecto crítico é a possibilidade de ativação remota do microfone e da câmera. Esses recursos transformam o telefone em uma ferramenta de monitoramento contínuo, permitindo acompanhar conversas e ambientes próximos ao dispositivo sem que a vítima perceba a vigilância.
Apple corrigiu a vulnerabilidade
A vulnerabilidade explorada teria sido corrigida pela Apple no iOS 18.4.1, disponibilizado em 16 de abril de 2025. Na ocasião, a empresa informou que as falhas corrigidas poderiam ter sido utilizadas em ataques altamente sofisticados e direcionados contra indivíduos específicos.
Embora atualizações de sistema não eliminem todos os riscos associados a spyware mercenário, elas são uma das medidas mais importantes para reduzir a exposição. Fabricantes costumam corrigir rapidamente vulnerabilidades críticas quando identificam ataques reais, mas a proteção só é aplicada depois que o usuário instala a versão correspondente.
O episódio também demonstra por que pessoas em posições de maior risco – como ativistas, jornalistas, pesquisadores, políticos e defensores de direitos humanos – precisam tratar alertas de segurança com prioridade. Uma notificação desse tipo não deve ser ignorada nem encarada como um aviso genérico.
Campanha atinge integrantes da sociedade civil
O ataque contra o estudante não parece ser um caso isolado. Pelo menos 14 pessoas na Sérvia, entre estudantes, ativistas, um parlamentar e um representante político local, receberam alertas da Apple relacionados a possíveis tentativas de espionagem com spyware.
Investigações também apontaram que outros integrantes do movimento estudantil foram monitorados por ferramentas destinadas a dispositivos Android. Entre os programas associados a esses episódios estão variantes relacionadas ao NoviSpy, indicando que a campanha não se limitou ao ecossistema da Apple.
A combinação de Pegasus, ferramentas voltadas ao Android e alertas direcionados sugere uma intensificação das operações contra membros da sociedade civil sérvia. O uso de diferentes plataformas pode ampliar o alcance da vigilância e dificultar a identificação de um único método de ataque.
Por que o Pegasus é tão perigoso?
O Pegasus pertence à categoria de spywares mercenários, vendidos ou licenciados para clientes capazes de financiar operações avançadas de vigilância. Diferentemente de ameaças comuns, seu objetivo não é atingir o maior número possível de usuários, mas comprometer alvos selecionados com alto valor estratégico.
Esse tipo de ferramenta costuma explorar falhas desconhecidas ou pouco documentadas, conhecidas como vulnerabilidades de dia zero. Mesmo quando uma brecha já foi corrigida, vítimas que não atualizam seus dispositivos continuam expostas a versões antigas do sistema.
Os sinais de infecção também podem ser discretos. O aparelho pode continuar funcionando normalmente, sem janelas suspeitas, aplicativos desconhecidos ou mensagens visíveis. Por isso, a investigação depende frequentemente de análises forenses, registros técnicos e ferramentas especializadas.
Medidas de proteção recomendadas
A atualização automática do sistema operacional deve permanecer ativada sempre que possível. Também é importante manter aplicativos de mensagens, navegadores e serviços de armazenamento na versão mais recente, já que ataques podem explorar componentes além do sistema principal.
Pessoas sob risco elevado podem considerar o uso de recursos de bloqueio reforçado, como o Modo de Isolamento da Apple, quando disponível e compatível com sua rotina. A ferramenta reduz determinadas funcionalidades para limitar superfícies de ataque, embora possa afetar a experiência de uso.
Outra recomendação é evitar o uso de dispositivos desatualizados ou que já não recebem correções de segurança. A autenticação multifator, senhas exclusivas e o controle cuidadoso de aplicativos instalados também ajudam a diminuir os danos em caso de comprometimento.
Ao receber um alerta de possível ataque, o usuário deve preservar o aparelho, evitar restaurá-lo imediatamente e procurar uma equipe especializada em análise forense digital. Alterações no dispositivo podem apagar evidências importantes para confirmar a infecção e identificar o método utilizado.
O caso sérvio reforça que o spyware continua sendo uma ameaça concreta para grupos políticos, movimentos sociais e profissionais que lidam com informações sensíveis. A exploração silenciosa do iMessage mostra que até usuários cuidadosos podem ser atingidos sem clicar em links ou cometer erros básicos de segurança.
