Partido verde propõe pausa em novos datacenters no reino unido por pressão sobre água e energia

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Partido Verde britânico propõe pausa em novos datacenters por pressão sobre água e energia

O Partido Verde da Inglaterra e do País de Gales quer suspender temporariamente a aprovação de novos datacenters no Reino Unido. A medida seria mantida até que o governo estabeleça critérios mais rigorosos para avaliar o impacto dessas instalações sobre o consumo de eletricidade, o abastecimento de água e a infraestrutura das comunidades próximas.

A proposta foi defendida por Zack Polanski, líder da legenda, em meio à expansão acelerada dos serviços de computação em nuvem e das plataformas de inteligência artificial. Segundo ele, o partido não se opõe à tecnologia nem à existência de datacenters, mas considera inadequado autorizar novos empreendimentos sem comprovar que eles não comprometerão recursos essenciais para a população.

A preocupação se concentra especialmente em grandes complexos projetados para processar cargas de trabalho de IA. Esses locais utilizam milhares de servidores, GPUs, aceleradores especializados, equipamentos de armazenamento e sistemas de rede. Todo esse conjunto exige fornecimento contínuo de energia e uma estrutura de refrigeração capaz de controlar o calor produzido pelos componentes.

Dependendo do método empregado, o resfriamento pode consumir volumes expressivos de água. Sistemas que utilizam evaporação, por exemplo, podem aumentar a pressão sobre mananciais em períodos de seca ou de maior demanda. Já alternativas baseadas em ar, circuitos fechados ou líquidos especiais reduzem determinados impactos, mas também podem elevar os custos de implantação e operação.

O debate ganhou força depois que o governo britânico classificou os datacenters como parte da infraestrutura nacional crítica. A decisão pretende proteger e ampliar a capacidade computacional do país, considerada estratégica para serviços digitais, empresas de tecnologia, órgãos públicos e projetos relacionados à inteligência artificial.

O Reino Unido também busca atrair investimentos internacionais e fortalecer sua posição na disputa global por infraestrutura de IA. No entanto, o crescimento do setor ocorre em um momento em que algumas regiões enfrentam limitações na rede elétrica. Em determinadas áreas, a capacidade disponível não é suficiente para atender simultaneamente novos empreendimentos residenciais, fábricas, sistemas de transporte eletrificado e instalações computacionais de grande porte.

Essa disputa por capacidade pode afetar até mesmo projetos habitacionais. Quando uma subestação ou uma linha de transmissão opera próxima do limite, a conexão de um datacenter pode exigir obras adicionais antes que novas casas sejam ligadas à rede. O resultado é o aumento do prazo e do custo de empreendimentos que dependem de infraestrutura elétrica previamente disponível.

Inteligência artificial aumenta a pressão sobre a rede

A expansão da IA generativa tornou o problema mais complexo. Treinar modelos avançados exige enormes volumes de processamento, enquanto o uso cotidiano desses sistemas também demanda servidores potentes. Diferentemente de cargas tradicionais, que podem variar com maior facilidade, determinadas operações de IA precisam manter aceleradores funcionando por longos períodos.

Além do consumo direto dos equipamentos, os datacenters precisam alimentar sistemas de ventilação, refrigeração, segurança, iluminação, armazenamento de energia e conectividade. A eficiência energética pode melhorar com novas tecnologias, mas o aumento da capacidade computacional tende a compensar parte desses ganhos.

Os Verdes também questionam a relação entre o volume de recursos utilizados e a geração de empregos. A construção de um datacenter pode movimentar bilhões, estimular fornecedores e gerar postos temporários durante as obras. Depois da entrada em operação, contudo, o número de funcionários costuma ser menor do que o observado em instalações industriais de porte semelhante.

Para o partido, os projetos deveriam ser avaliados não apenas pelo investimento prometido, mas também pela contribuição econômica permanente, pela quantidade de empregos qualificados, pela arrecadação local e pelos custos assumidos pelo poder público para expandir redes de água e eletricidade.

Governo aposta em zonas voltadas à inteligência artificial

A proposta de moratória enfrenta resistência de empresas de tecnologia, operadoras de datacenters e investidores. O setor afirma que uma interrupção poderia afastar capital estrangeiro, atrasar a implantação de serviços digitais e reduzir a competitividade britânica em um mercado no qual Estados Unidos, países europeus e nações asiáticas disputam capacidade computacional.

Outro argumento é que regras muito restritivas poderiam estimular empresas a levar seus projetos para outros países, sem eliminar a demanda por serviços de nuvem e IA. Nesse cenário, o Reino Unido deixaria de capturar investimentos e empregos, mas continuaria dependendo de infraestrutura instalada no exterior.

A localização dos novos empreendimentos também passou a ser uma questão central. Londres e sua região metropolitana concentram grande parte dos datacenters existentes, graças à proximidade de clientes, redes de telecomunicações e centros financeiros. Porém, a saturação da rede elétrica tem incentivado desenvolvedores a procurar áreas fora da capital.

Para acelerar essa descentralização, o governo trabalha com as chamadas AI Growth Zones, áreas planejadas para facilitar projetos ligados à inteligência artificial. A proposta inclui melhorar o acesso à energia, simplificar processos de aprovação e direcionar investimentos para regiões com maior disponibilidade de infraestrutura.

Críticos, entretanto, alertam que a criação dessas zonas não deve significar a flexibilização automática de exigências ambientais. Antes de aprovar um novo complexo, seria necessário verificar a origem da eletricidade, a disponibilidade hídrica, o impacto sobre ecossistemas, o ruído gerado pelos equipamentos e a capacidade de expansão das redes locais.

Quais regras poderiam evitar conflitos?

Uma alternativa à suspensão total seria estabelecer um sistema de licenciamento por etapas. O desenvolvedor poderia receber autorização inicial para construir parte da instalação e ampliar sua operação somente depois de comprovar que a rede elétrica e o abastecimento de água suportam a demanda adicional.

Também poderiam ser exigidas metas de eficiência, uso prioritário de energia renovável contratada, reaproveitamento do calor produzido pelos servidores e adoção de sistemas de refrigeração com menor consumo hídrico. Em regiões sujeitas a escassez, a utilização de água potável para resfriamento poderia ser limitada ou proibida.

Outra possibilidade seria obrigar as empresas a financiar uma parcela das obras necessárias para reforçar subestações, linhas de transmissão, reservatórios e sistemas de tratamento. Dessa forma, parte do custo da expansão deixaria de ser transferida para moradores e contribuintes.

O planejamento energético também precisaria considerar a operação contínua dos datacenters. Fontes renováveis intermitentes podem reduzir emissões, mas exigem armazenamento, contratos de fornecimento ou conexão com uma rede capaz de compensar períodos de baixa geração. Sem esse planejamento, o aumento da demanda pode elevar a dependência de usinas fósseis em momentos críticos.

A discussão britânica reflete um dilema que deve se repetir em outros países: a inteligência artificial depende de infraestrutura física, e essa infraestrutura utiliza recursos limitados. O desafio não é simplesmente escolher entre inovação e proteção ambiental, mas criar condições para que o avanço tecnológico não comprometa serviços essenciais.

Por isso, a proposta do Partido Verde coloca em evidência a necessidade de transparência. Comunidades afetadas deveriam ter acesso a dados sobre consumo de energia, uso de água, emissões, empregos gerados e investimentos públicos associados a cada projeto. Com informações claras, governos poderiam comparar benefícios e custos antes de conceder novas autorizações.

No Reino Unido, a disputa agora opõe a urgência de ampliar a capacidade computacional à necessidade de garantir que a rede elétrica, o abastecimento de água e as regras ambientais acompanhem o ritmo da expansão. A decisão sobre uma eventual moratória poderá influenciar não apenas a política britânica para datacenters, mas também o modo como outros países irão administrar o crescimento da infraestrutura necessária para a inteligência artificial.