Quase ninguém mais se importa com os padrões da web – e isso afeta a acessibilidade
Uma análise dos 5 mil domínios mais acessados da internet revelou um cenário preocupante: 87,2% dos sites avaliados apresentam algum tipo de violação dos padrões HTML. Os problemas variam de erros na estrutura do código a falhas que prejudicam a navegação de pessoas que utilizam leitores de tela e outras tecnologias assistivas.
O levantamento foi conduzido pelo desenvolvedor francês independente Théo Ducreux, responsável pelo projeto ValidateHTML. A lista de endereços foi montada com base no ranking do Tranco, que reúne domínios populares e amplamente acessados. Entre os sites examinados estavam serviços conhecidos, como Google, YouTube e Akamai, além de endereços usados principalmente para redirecionamentos ou para a comunicação entre sistemas, produtos e servidores.
Dos 5 mil domínios analisados, 2.656 tinham uma página inicial voltada diretamente à interação com usuários. Mesmo assim, considerando o conjunto completo da amostra, foram identificadas 100.305 violações relacionadas ao HTML, incluindo regras introduzidas nas especificações do HTML5. Também foram registrados 18.863 problemas em folhas de estilo CSS.
O resultado mostra que apenas 12,8% dos domínios apresentavam HTML totalmente válido. Quando a avaliação inclui também alertas e recomendações de boas práticas, a aprovação cai para apenas 2,6% dos endereços analisados.
Navegadores escondem muitos erros
Os padrões definidos por organizações como o World Wide Web Consortium (W3C) e o WHATWG servem para criar uma linguagem comum entre páginas, navegadores, leitores de tela, mecanismos de busca e diferentes ferramentas digitais. Na prática, porém, os navegadores modernos conseguem lidar com uma grande quantidade de códigos malformados.
Ao encontrar uma marcação incorreta, o navegador geralmente tenta reconstruir a estrutura que o desenvolvedor pretendia criar. Essa capacidade faz com que muitos erros não sejam percebidos durante o uso cotidiano. A página abre, os botões funcionam e o conteúdo parece normal para a maioria dos visitantes.
O problema é que essa tolerância não se aplica da mesma maneira a todas as tecnologias. Um leitor de tela, um assistente de voz, um tradutor automático ou um agente de inteligência artificial pode interpretar a mesma página de forma diferente. Quando a estrutura não está clara, o conteúdo perde consistência entre plataformas.
A falha mais comum identificada pelo ValidateHTML apareceu em mais de 59% dos sites e estava relacionada ao posicionamento inadequado de elementos, incluindo o aninhamento incorreto de tags. De acordo com Ducreux, muitos desses problemas são gerados automaticamente durante o processo de compilação dos projetos, e não escritos diretamente por um programador.
Frameworks de front-end, bibliotecas de componentes e ferramentas de build podem modificar o código original antes que ele chegue ao navegador. Sem uma etapa rigorosa de validação, pequenos erros introduzidos nesse processo acabam sendo publicados em larga escala.
Acessibilidade é uma das áreas mais afetadas
Mais de um terço dos sites falhou em verificações de acessibilidade. Em aproximadamente 20,4% dos domínios, as imagens não tinham textos alternativos. Esse recurso permite que leitores de tela transmitam ao usuário uma descrição do conteúdo visual ou indiquem que a imagem é apenas decorativa.
A ausência de texto alternativo é especialmente problemática em páginas de comércio eletrônico, serviços públicos, notícias e plataformas educacionais. Uma fotografia de produto sem descrição, por exemplo, pode impedir que uma pessoa com deficiência visual compreenda suas características.
Outro problema relevante foi a falta de rótulos ARIA, identificada em 41,6% das páginas. Esses atributos ajudam a indicar a função de regiões e componentes da interface, como menus, caixas de diálogo, áreas de navegação e botões personalizados.
Sem uma identificação adequada, uma tecnologia assistiva pode não saber se determinado elemento é um menu, uma janela aberta ou um controle interativo. Em consequência, o usuário pode ter dificuldade para entender a organização da página ou executar uma ação simples.
A estrutura semântica também tem impacto direto na navegação por teclado. Títulos bem hierarquizados, landmarks, formulários corretamente rotulados e ordem lógica de foco permitem que a pessoa percorra o conteúdo sem precisar interagir com cada elemento de maneira aleatória.
Código que funciona não significa código correto
A validade do HTML costuma ser tratada como uma questão meramente técnica. Entretanto, o estudo mostra que a qualidade do código está ligada à previsibilidade da experiência digital. Uma página pode funcionar perfeitamente em um navegador específico e, ainda assim, oferecer uma experiência ruim em outro ambiente.
O fato de o Chrome corrigir uma marcação não significa que leitores de tela terão a mesma capacidade. Tecnologias assistivas dependem de uma árvore de acessibilidade construída a partir do HTML, do CSS e do comportamento dos componentes. Se essa árvore for incompleta ou incoerente, a interpretação da interface será prejudicada.
O mesmo vale para sistemas automatizados. Ferramentas de inteligência artificial precisam identificar títulos, listas, tabelas, links e seções para compreender o contexto de uma página. Quanto mais dependente de elementos visuais e menos organizada for a marcação, maior a possibilidade de respostas imprecisas ou de informações ignoradas.
Há também riscos legais e comerciais
As falhas não representam apenas uma questão de qualidade. Em determinadas situações, a falta de acessibilidade pode gerar problemas de conformidade e exposição jurídica. Na Europa, o European Accessibility Act, em vigor desde 2025, ampliou as exigências para determinados produtos e serviços digitais.
Nos Estados Unidos, empresas também podem enfrentar disputas relacionadas à dificuldade de acesso a serviços online. Além do risco legal, uma interface inacessível pode afastar clientes, reduzir conversões e aumentar a demanda por atendimento humano.
Para empresas, corrigir problemas de acessibilidade depois do lançamento costuma ser mais caro do que incorporar boas práticas desde o início. Auditorias periódicas, testes com teclado e avaliações realizadas por pessoas com deficiência ajudam a detectar falhas que ferramentas automáticas nem sempre encontram.
Como reduzir os problemas
A validação deve fazer parte do processo de desenvolvimento, e não ocorrer apenas quando um projeto está prestes a ser publicado. Ferramentas de análise podem identificar tags malformadas, atributos ausentes, conflitos de CSS e componentes usados de maneira inadequada.
Também é importante testar a página em diferentes navegadores e com leitores de tela. Testes automatizados são úteis, mas não substituem a avaliação manual. Uma página pode cumprir várias regras técnicas e ainda apresentar uma experiência confusa para quem depende de tecnologia assistiva.
Equipes devem priorizar HTML semântico, evitar componentes personalizados desnecessários e garantir que todos os controles possam ser operados pelo teclado. Imagens informativas precisam de descrições adequadas, enquanto elementos decorativos devem ser ignorados pelas tecnologias assistivas.
O projeto ValidateHTML foi criado por Ducreux com um rastreador próprio e ferramentas de código aberto, incluindo HTML-validate, CSS Validator, Lightning CSS e fast-xml-parser. O sistema de pontuação, o código do site e a lógica de rastreamento também foram desenvolvidos pelo pesquisador, sem equipe, financiamento ou empresa por trás do trabalho.
Ducreux não considera o HTML inválido uma ameaça à continuidade da web. Os navegadores ainda conseguem contornar grande parte das inconsistências. O alerta, porém, é outro: depender indefinidamente dessas correções automáticas mantém a internet funcionando para muitos usuários, mas pode deixá-la menos acessível, menos previsível e mais excludente para milhões de pessoas.