Stripe pode desembolsar mais de US$ 7 bilhões pela OpenRouter e avançar sobre a infraestrutura de tokens de IA
A Stripe estaria negociando a compra da OpenRouter por um valor mínimo estimado em US$ 7 bilhões. Se confirmada, a operação representaria uma mudança importante na estratégia da empresa de pagamentos, que passaria a atuar também em uma camada central da economia da inteligência artificial: a distribuição, o controle e a cobrança pelo uso de modelos generativos.
A OpenRouter opera como um gateway de inteligência artificial. Na prática, a plataforma permite que desenvolvedores e companhias acessem centenas de modelos diferentes por meio de uma única integração. Isso elimina a necessidade de criar conexões individuais com cada fornecedor e facilita a troca entre serviços conforme preço, velocidade, qualidade ou disponibilidade.
Para a Stripe, a aquisição ampliaria seu papel no ecossistema digital. A companhia deixaria de intermediar apenas transações financeiras e poderia passar a administrar também o consumo de tokens – as unidades utilizadas para processar textos, códigos, imagens e outras solicitações em sistemas de IA.
A Stripe não confirmou a negociação e declarou que não comenta rumores ou especulações. Antes da informação sobre um possível acordo, já havia relatos de que as duas empresas discutiam uma aquisição. A notícia de que o negócio poderia estar avançado teria sido divulgada inicialmente pela Bloomberg, enquanto o Wall Street Journal havia informado anteriormente sobre as conversas.
Segundo Akhil Verghese, fundador e CEO da empresa de software de IA Krazimo, existe uma complementaridade evidente entre as companhias. A Stripe construiu uma infraestrutura que conecta compradores, vendedores e instituições financeiras. A OpenRouter ocupa posição semelhante no relacionamento entre aplicações, desenvolvedores e provedores de modelos de inteligência artificial.
O preço projetado para a transação chama atenção principalmente quando comparado à avaliação recente da OpenRouter. A empresa teria levantado capital em maio com uma avaliação pós-investimento de US$ 1,3 bilhão. Caso seja adquirida por pelo menos US$ 7 bilhões, sua valorização teria aumentado mais de cinco vezes em aproximadamente três meses.
A justificativa econômica para esse salto estaria na expansão acelerada do uso de tokens. Um estudo chamado “AI Premium” estima que os modelos de linguagem processem entre 5 e 7 quadrilhões de tokens por mês em todo o mundo. Desse total, cerca de 2% passaria pela infraestrutura da OpenRouter.
O alcance da plataforma também cresceu rapidamente. Em dezembro de 2025, a companhia informava atender mais de 5 milhões de desenvolvedores e oferecer acesso a mais de 300 modelos de aproximadamente 70 fornecedores. Atualmente, afirma reunir mais de 10 milhões de desenvolvedores e trabalhar com cerca de 80 provedores.
Os números de tráfego reforçam a relevância do negócio. Dados atribuídos à Andreessen Horowitz indicam que a OpenAI processava cerca de 8,6 trilhões de tokens por dia em outubro de 2025. No mesmo período, a OpenRouter já havia ultrapassado a marca de 1 trilhão de tokens diários.
Por que os gateways de IA estão ganhando importância
A expansão dos gateways ocorre em um momento em que empresas tentam evitar dependência excessiva de um único laboratório de IA. Contratar diretamente uma única fornecedora pode limitar a flexibilidade tecnológica, aumentar custos e reduzir a capacidade de negociação do cliente.
Com uma camada intermediária, uma aplicação pode encaminhar cada solicitação ao modelo mais adequado. Uma tarefa simples pode ser direcionada a um sistema de menor custo, enquanto uma demanda complexa pode utilizar um modelo mais avançado. O roteamento também pode considerar congestionamentos, interrupções, localização dos servidores e exigências de privacidade.
Esse formato permite que as empresas façam ajustes sem reformular toda a arquitetura de seus produtos. Em vez de alterar o código sempre que trocam de fornecedor, elas realizam a mudança dentro do próprio gateway.
Outro benefício é a consolidação financeira. A empresa pode receber uma única fatura, estabelecer limites de consumo, acompanhar gastos por departamento e aplicar regras específicas para diferentes projetos. Esses recursos são especialmente importantes para organizações que executam milhões de solicitações diariamente.
Modelos abertos pressionam preços
Os modelos de pesos abertos também vêm ampliando sua participação no mercado. Dados da Vercel indicam que a fatia desses sistemas nos gastos com tokens processados por gateways subiu de 11% em abril para 36% em julho.
No mesmo intervalo, a participação dos quatro maiores laboratórios de modelos de fronteira caiu de mais de 93%, patamar mantido por sete meses, para 89%. A mudança foi parcialmente associada ao crescimento de empresas chinesas, como Z.ai e Moonshot, responsáveis por modelos como GLM 5.2 e Kimi K3.
Apesar do avanço das alternativas abertas, os principais laboratórios norte-americanos ainda concentram a maior parte da receita. Em junho, eles teriam ficado com 95% dos gastos processados pelo AI Gateway da Vercel.
A Anthropic é um exemplo dessa concentração. Em julho, a empresa recebeu 65% dos gastos realizados pelo gateway, embora representasse 30% do volume de tokens. O preço médio cobrado por seus tokens foi 4,4 vezes maior que a média dos demais laboratórios.
Ao mesmo tempo, os modelos de pesos abertos passaram a gerar mais receita. Entre abril e junho, sua participação no volume de tokens quase triplicou, de 11% para 29%. Na receita, a fatia avançou de aproximadamente quatro para quase nove centavos de cada dólar movimentado pelos gateways, mesmo com uma queda de 13,6% no preço médio dos tokens em julho.
Aquisição pode mudar a relação entre clientes e fornecedores
Se a distribuição de cargas entre vários modelos continuar crescendo, os gateways poderão se tornar uma das camadas mais importantes da infraestrutura de IA. Para a Stripe, controlar esse ponto de conexão ofereceria acesso a informações estratégicas sobre pagamentos, volume de uso, custos e preferências dos clientes.
A companhia também poderia integrar cobrança, gestão de créditos, faturamento recorrente e monitoramento de consumo em uma única solução. Isso criaria oportunidades para novos produtos voltados a startups, empresas de software e grandes corporações que incorporam IA aos seus serviços.
No entanto, a eventual aquisição levanta dúvidas sobre a neutralidade da OpenRouter. Um gateway precisa escolher modelos com base em critérios técnicos e econômicos, e não em interesses comerciais de um proprietário específico. Se a Stripe tiver participação direta em determinados fornecedores ou serviços, clientes podem questionar se o roteamento continuará imparcial.
A transparência dos critérios de encaminhamento será, portanto, essencial. Indicadores como custo, latência, taxa de erro, desempenho e disponibilidade deverão ser apresentados de forma clara. Também será importante permitir que empresas definam suas próprias prioridades e bloqueiem determinados provedores quando houver exigências regulatórias ou de segurança.
A operação ainda poderia enfrentar desafios relacionados à privacidade e à soberania de dados. Solicitações enviadas por um gateway podem conter informações confidenciais, códigos proprietários ou dados pessoais. Por isso, controles de retenção, criptografia, localização do processamento e auditoria terão papel decisivo na adoção empresarial.
Para os desenvolvedores, a compra pode trazer vantagens e riscos. Uma estrutura financeira mais robusta poderia acelerar investimentos, melhorar a estabilidade da plataforma e ampliar a oferta de modelos. Por outro lado, uma eventual mudança de preços, políticas ou regras de acesso poderia afetar aplicações que dependem intensamente da OpenRouter.
A possível transação mostra que a disputa no setor de inteligência artificial não se limita mais à criação dos melhores modelos. A infraestrutura responsável por conectá-los aos usuários, distribuir o tráfego e transformar tokens em receita também se tornou um ativo estratégico. Se o acordo avançar, a Stripe poderá se posicionar justamente nesse ponto de interseção entre pagamentos, software e inteligência artificial.
