73% das empresas não prontas para ataque cibernético revelam baixa maturidade em segurança

9 минут чтения

73% das empresas admitem não estar prontas para um grande ataque cibernético: o que isso revela sobre a maturidade em segurança digital

Embora a maioria das organizações já conte com planos de resposta a incidentes, soluções de segurança e equipes especializadas, quase três em cada quatro executivos reconhecem que, se um grande ataque cibernético acontecesse hoje, a empresa não estaria totalmente preparada para reagir. Esse é o principal alerta do relatório The State of Incident Response Readiness 2026, construído a partir de entrevistas com 600 líderes de segurança da informação.

O estudo evidencia um descompasso claro: não basta ter ferramentas e processos documentados; é preciso conseguir acioná‑los de forma coordenada, estruturada e rápida em um cenário real de crise. Na prática, aquilo que está “no papel” muitas vezes não se traduz em um plano operacional eficaz quando a organização é colocada sob pressão.

Além disso, 76% das empresas relataram ter sofrido ao menos um ataque cibernético nos últimos 12 meses, e 32% enfrentaram dois ou mais incidentes no mesmo período. Ou seja, não se trata de um risco hipotético: os ataques são recorrentes, diversificados e, com frequência, atingem diferentes áreas do negócio.

Resposta a incidentes deixou de ser um tema apenas técnico

O relatório destaca que a resposta a incidentes evoluiu de uma disciplina puramente técnica para um processo multidisciplinar. Hoje, um ataque relevante tende a envolver, simultaneamente, áreas como gestão de crise, comitês executivos, jurídico, comunicação, equipes de forense digital, times de infraestrutura e nuvem, além de profissionais responsáveis por recuperação de ambientes e monitoramento pós-incidente.

Mesmo com essa complexidade crescente, menos de 40% dos entrevistados classificaram como “altamente eficazes” componentes básicos da resposta, como:
– planos formais e atualizados,
– exercícios de simulação (tabletop),
– práticas de threat hunting,
– perícia digital estruturada,
– monitoramento contínuo e centralizado.

Esse dado sinaliza que muitas organizações ainda tratam resposta a incidentes como um conjunto de documentos ou ferramentas isoladas, e não como uma capacidade integrada, testada e continuamente aprimorada.

Falta de coordenação ainda é o principal gargalo

Um dos pontos mais críticos revelados pela pesquisa é que o problema não está, em geral, na falta de tecnologia. O verdadeiro desafio é alinhar, em tempo real, diversas áreas com interesses, prioridades e linguagens diferentes.

Cerca de 90% das empresas afirmam esperar dificuldades para coordenar todas as partes envolvidas em um ataque de grande impacto. Além disso, 75% reconhecem que a entrada tardia dos departamentos jurídico e de comunicação afeta diretamente a qualidade e a velocidade das decisões.

Na prática, isso costuma se traduzir em cenários como:
– equipes técnicas iniciam a contenção e a investigação sem um direcionamento estratégico claro;
– executivos aguardam apresentações e relatórios antes de aprovar ações críticas, o que adia medidas de contenção;
– o jurídico é envolvido apenas quando o incidente já ganhou proporções relevantes;
– decisões sobre notificação a clientes, parceiros, reguladores e imprensa são constantemente adiadas por falta de alinhamento interno.

Esse descompasso faz com que a organização responda de forma fragmentada, perdendo tempo em um momento em que cada minuto pode representar mais dados vazados, maior indisponibilidade de sistemas e danos financeiros mais severos.

Baixo envolvimento da alta direção amplia o risco

Outro ponto preocupante é o papel limitado da alta liderança. De acordo com o relatório, 89% dos entrevistados consideram inadequado o nível de participação da diretoria executiva e dos conselhos de administração na preparação e na tomada de decisões relacionadas à resposta a incidentes.

Isso cria um vácuo de governança justamente quando decisões estratégicas – como pagamento ou não de resgate, comunicação pública, acionamento de seguros cibernéticos, notificação a autoridades regulatórias e revisão de processos de negócio – precisam ser tomadas com rapidez e clareza.

Sem o patrocínio e a presença ativa da alta gestão:
– a segurança tende a ser vista como um tema exclusivamente técnico;
– investimentos em preparo, testes e treinamento são postergados;
– a cultura de resposta a incidentes não se consolida na organização;
– aprendizados de eventos passados não se transformam em mudanças estruturais.

Pontos cegos de visibilidade alimentam novos ataques

O levantamento mostra ainda que muitas empresas operam com lacunas significativas na visibilidade de seus ambientes de TI. Para 78% dos respondentes, a ausência de monitoramento abrangente e integrado facilita a permanência silenciosa de invasores nos sistemas, abrindo espaço para ataques recorrentes e movimentos de longo prazo dentro do ambiente.

Esses pontos cegos podem estar presentes em:
– infraestruturas on-premises;
– ambientes em nuvem pública, privada ou híbrida;
– dispositivos móveis e endpoints;
– plataformas SaaS adotadas pelos negócios;
– sistemas de identidade e autenticação;
– ambientes de tecnologia operacional (OT) e controle industrial.

Sem essa visibilidade, torna-se difícil responder a questões básicas durante uma investigação:
– onde começou a invasão?
– quais sistemas e dados foram comprometidos?
– houve movimentação lateral entre diferentes redes ou ambientes?
– contas com privilégios elevados foram abusadas?
– todos os mecanismos de persistência foram realmente identificados e removidos?

A ausência de respostas claras a essas perguntas faz com que muitas empresas declarem o incidente “resolvido” sem eliminar completamente a presença do atacante, que pode explorar o mesmo caminho de entrada ou backdoors remanescentes em um segundo momento.

Ambiente industrial amplia a superfície e o impacto do risco

O relatório evidencia também uma preocupação crescente com ataques que atravessam a fronteira entre o ambiente corporativo tradicional (TI) e os sistemas industriais (OT/ICS). Para 84% das organizações, há receio concreto de que invasores consigam migrar da rede corporativa para estruturas de tecnologia operacional e sistemas de controle industrial.

Esse cenário é especialmente sensível em setores como:
– indústria de manufatura e automotiva;
– energia e utilities;
– saúde e laboratórios;
– transporte, logística e mobilidade;
– infraestrutura crítica em geral.

Nesses casos, um ataque não se limita à indisponibilidade de sistemas; ele pode afetar diretamente a continuidade de operações físicas, a segurança de funcionários e clientes, a integridade de processos industriais e o tempo de recuperação de toda a cadeia produtiva. Uma falha em sistemas de controle pode, por exemplo, interromper linhas de produção, impactar distribuição de energia ou afetar equipamentos médicos essenciais.

Impactos financeiros e reputacionais seguem em alta

Os incidentes registrados nos últimos doze meses geraram efeitos tangíveis para as organizações. Entre os impactos mais citados estão:
– paralisação de operações críticas;
– perda parcial ou total de dados sensíveis;
– danos à reputação e à confiança do mercado;
– redução da base de clientes;
– queda de receita em curto e médio prazo;
– pressão adicional sobre a liderança executiva.

O estudo também aponta diferenças relevantes entre setores. Empresas de varejo sofreram mais interrupções operacionais e perdas financeiras diretas, refletindo a dependência de sistemas de pagamento, e-commerce e logística. Organizações industriais e do setor financeiro relatam maior incidência de perda de dados sensíveis, enquanto empresas de criptomoedas e finanças descentralizadas aparecem com a maior taxa de ataques bem-sucedidos.

Instituições privadas de saúde, por sua vez, expressam forte preocupação com atrasos na mobilização das áreas jurídica e de comunicação, dada a sensibilidade dos dados tratados e o rigor regulatório. A demora em informar incidentes pode levar a sanções, perda de credibilidade e ações judiciais.

Diferenças regionais: frequência versus gravidade

Do ponto de vista geográfico, a América do Norte registrou o maior volume de ataques, refletindo um ambiente digital denso, grande quantidade de empresas de tecnologia e alta atratividade financeira para grupos criminosos.

Na região Ásia-Pacífico, os incidentes tendem a causar mais perdas de dados, danos reputacionais e evasão de clientes, o que indica desafios adicionais em termos de proteção à privacidade e comunicação de crise. Já na Europa, embora a frequência de ataques tenha sido menor, o impacto financeiro médio por incidente foi mais elevado, possivelmente influenciado pela combinação de requisitos regulatórios e altos custos relacionados à interrupção de negócios e à recuperação.

Ransomware e nuvem lideram as preocupações futuras

Em relação ao futuro próximo, o ransomware continua no topo das ameaças que mais preocupam as empresas. A possibilidade de paralisação total de operações, extorsão financeira e vazamento público de dados sensíveis faz desse tipo de ataque um dos mais temidos pelos executivos.

Na sequência, destacam-se:
– ataques direcionados a ambientes de nuvem, muitas vezes explorando configurações inadequadas;
– comprometimento de e-mail corporativo (BEC), focado em fraudes financeiras e engenharia social;
– exploração de vulnerabilidades em cadeias de suprimentos digitais, incluindo fornecedores de software e serviços terceirizados.

Esse conjunto de ameaças é potencializado pela profissionalização do crime digital, pela oferta de kits de ataque como serviço e pelo aumento no uso de inteligência artificial por grupos maliciosos para automatizar fraudes, criar conteúdos falsos e burlar mecanismos de defesa tradicionais.

Como reduzir o gap entre percepção e preparo

Os dados do relatório apontam para a necessidade urgente de transformar a forma como as organizações encaram a resposta a incidentes. Mais do que reforçar o discurso de “priorizar segurança”, é essencial desenvolver uma capacidade prática, testada e integrada de reação a crises cibernéticas. Algumas diretrizes ganham destaque:

1. Tornar a resposta a incidentes um tema de conselho e diretoria
A alta liderança precisa participar ativamente de exercícios, tomar parte na definição de cenários de crise, aprovar planos de comunicação e se envolver em revisões pós-incidente. Sem esse engajamento, decisões críticas tendem a ser lentas e reativas.

2. Investir em simulações realistas e recorrentes
Exercícios tabletop e testes de crise que envolvam TI, OT, jurídico, comunicação e negócios ajudam a identificar gargalos, alinhar expectativas e criar fluidez nos processos. Não basta simular apenas o aspecto técnico; é preciso treinar também a governança e a comunicação.

3. Fortalecer a visibilidade de ponta a ponta
Construir uma visão unificada de logs, eventos e ativos, incluindo nuvem, SaaS, dispositivos e ambientes industriais, é fundamental para detectar ataques precocemente, conter movimentação lateral e responder com precisão.

4. Integrar TI, OT e segurança desde o planejamento
À medida que ambientes corporativos e industriais se conectam, a segurança não pode ser tratada em silos. Políticas, monitoramento e resposta precisam considerar fluxos entre redes, sistemas legados e novas tecnologias.

5. Estabelecer processos claros de comunicação de crise
Definir previamente quem fala, o que pode ser comunicado, em que momentos e por quais canais reduz a improvisação em situações de alta pressão. Isso vale tanto para clientes e parceiros quanto para reguladores e imprensa.

Do “se” para o “quando”: mudança de mentalidade

O panorama traçado pelo relatório mostra que a maioria das empresas já superou a fase de negar o risco de ataques cibernéticos. A discussão deixou de ser se a organização será alvo de um incidente, passando a se concentrar em quando isso acontecerá e quão preparada ela estará para responder.

A diferença entre um ataque com impacto controlado e um evento capaz de comprometer a continuidade do negócio está, cada vez mais, na maturidade da resposta a incidentes: na capacidade de coordenar pessoas, processos e tecnologia sob pressão, com liderança presente, comunicação transparente e visibilidade consistente do ambiente.

Em um cenário em que 73% das empresas admitem não estar prontas para enfrentar um grande ataque hoje, construir essa capacidade deixa de ser uma vantagem competitiva e passa a ser uma questão de sobrevivência organizacional.