Estudantes do Colégio Marista Assunção desenvolvem app para apoiar rotina acadêmica de jovens com TDAH
Desorganização, dificuldade para manter o foco, impulsividade e fluxo constante de pensamentos são alguns dos desafios diários de muitos alunos com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No contexto escolar, esses fatores costumam afetar diretamente o desempenho acadêmico, a produtividade, o planejamento de estudos e até a autoestima. Nesse cenário, um grupo de estudantes do Colégio Marista Assunção, em Porto Alegre (RS), decidiu transformar a própria inquietação em pesquisa e solução prática.
A partir de um projeto de iniciação científica, os estudantes Alanys da Rosa, Débora Sophia, João Marques e Pedro Agra desenvolveram um aplicativo voltado à organização acadêmica de jovens com TDAH. A proposta do grupo foi criar uma ferramenta digital simples, acessível e baseada em evidências, capaz de diminuir os impactos do transtorno no dia a dia escolar e tornar o processo de aprendizagem mais acolhedor e eficiente.
Logo nas primeiras etapas da pesquisa, os jovens perceberam que, na prática, muitos sinais de TDAH – como desatenção, inquietação motora, esquecimentos frequentes e impulsividade – ainda são interpretados por colegas, familiares e até por profissionais da educação como “preguiça”, “falta de interesse” ou “descompromisso”. Esse tipo de interpretação equivocada reforça estigmas, prejudica relações e dificulta que o estudante receba o apoio adequado.
Os pesquisadores também identificaram um ponto em comum entre muitos alunos com diagnóstico de TDAH: a dificuldade em encontrar métodos de estudo organizados, objetivos e adaptáveis às necessidades individuais. Métodos tradicionais, baseados em longos períodos de leitura silenciosa, tarefas extensas e pouco dinâmicas, acabam sendo especialmente desafiadores. Pensamentos acelerados, dificuldade para manter o foco em atividades prolongadas e maior suscetibilidade a distrações fazem com que o planejamento da rotina acadêmica se torne uma barreira constante.
Inspirados por esse cenário, os estudantes idealizaram o FocuSunsa, um aplicativo pensado para ser uma espécie de “central de organização” da vida acadêmica de jovens com TDAH. A ferramenta reúne estratégias de planejamento e métodos de estudo respaldados por pesquisas na área da educação e da psicologia, permitindo que cada usuário selecione aquilo que mais se encaixa ao seu estilo de aprendizagem, horário e grau de concentração ao longo do dia.
Um dos recursos centrais do aplicativo é a lista de tarefas com lembretes automáticos. Mais do que um simples “to-do list”, o sistema utiliza inteligência artificial para decompor grandes atividades em etapas menores e mais realizáveis. Ao informar, por exemplo, que precisa preparar um trabalho ou estudar para uma prova de determinada disciplina, o estudante recebe um checklist sequencial, com pequenas ações organizadas cronologicamente: pesquisa inicial, leitura de materiais, criação de resumo, revisão de conteúdo, preparação da apresentação e assim por diante. Isso ajuda a reduzir a sensação de sobrecarga, um problema recorrente em quem tem TDAH.
A experiência visual do FocuSunsa também foi pensada com cuidado. Em vez de telas poluídas e excesso de estímulos, o layout prioriza clareza, poucos elementos e uma navegação intuitiva. Paletas de cores mais suaves e calmantes foram selecionadas para diminuir a fadiga visual e contribuir para um ambiente digital mais confortável. A ideia é que o estudante consiga se orientar rapidamente pelo aplicativo, encontrando o que precisa sem se perder em menus complexos ou distrações desnecessárias.
O projeto incorpora ainda funcionalidades inspiradas em ferramentas já usadas por pessoas com TDAH, mas com ênfase em personalização e acessibilidade. Entre os recursos planejados estão: técnicas de estudo baseadas em dados reais de aprendizagem, relatórios semanais de desempenho, sugestões de ajustes na rotina conforme o padrão de uso do estudante, playlists com músicas Lo-Fi para favorecer a concentração e um sistema de gamificação com experiência (XP), moedas virtuais e mascotes que evoluem conforme o usuário cumpre metas de estudo e organização.
Na visão da pesquisadora e integrante do projeto, Débora Sophia, a chave é unir praticidade e motivação:
Ela destaca que estudantes com TDAH costumam responder melhor a conteúdos e tarefas que sejam concretos, interativos e facilmente aplicáveis ao cotidiano. A proposta do aplicativo é tirar o peso da organização, transformando-a em algo mais leve, visual e intuitivo. Como não existe um único método universalmente eficaz, o FocuSunsa oferece diferentes caminhos e permite que cada estudante descubra, por tentativa orientada, quais estratégias funcionam melhor para si.
Responsável pelo desenvolvimento tecnológico, João Pedro explica que a interface foi planejada para ser o mais objetiva possível. O design prioriza a hierarquia clara das informações, botões bem identificados e fluxos de navegação curtos, reduzindo oportunidades de distração. Essa arquitetura facilita o uso tanto por estudantes com TDAH quanto por qualquer pessoa que tenha dificuldades de atenção, memória de trabalho ou gestão de tempo.
Do ponto de vista técnico, o aplicativo foi construído utilizando a linguagem/framework Flutter, o que garante compatibilidade com dispositivos Android e iOS. Essa escolha permite que a ferramenta seja disponibilizada em larga escala, sem limitações de sistema operacional, atendendo estudantes que utilizam diferentes tipos de smartphones ou tablets.
Alguns módulos do app, como os métodos baseados na Técnica Feynman e na estratégia de micropassos, contam com suporte de inteligência artificial integrada. Quando o aluno informa qual conteúdo precisa estudar ou que tipo de tarefa precisa cumprir, o sistema analisa a solicitação e oferece orientações personalizadas. No método Feynman, por exemplo, o aplicativo orienta o estudante a explicar o conteúdo “com as próprias palavras”, identifica trechos pouco claros e sugere revisões. Já no modelo de micropassos, o objetivo é dividir grandes metas em ações extremamente pequenas, tornando o início do estudo menos intimidante.
Além do desenvolvimento do protótipo, o grupo agora busca parcerias com instituições e organizações interessadas em apoiar a continuidade do projeto. O objetivo é viabilizar testes em maior escala, aprimorar as funcionalidades com base no feedback de estudantes e educadores e, em um segundo momento, disponibilizar a ferramenta para um número cada vez maior de jovens que convivem com o TDAH.
Os perfis dos responsáveis pelo projeto também ajudam a explicar a profundidade da proposta. Débora Sophia, por exemplo, é acadêmica de Pedagogia na PUCRS e acumula experiência no acompanhamento de estudantes que enfrentam dificuldades de organização da rotina e de aprendizagem. Essa vivência prática, somada ao embasamento teórico, influencia diretamente as escolhas pedagógicas do aplicativo, garantindo que os recursos tecnológicos estejam alinhados a princípios educacionais consistentes.
Impacto do TDAH na rotina escolar e por que a tecnologia pode ajudar
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que acompanha a pessoa ao longo da vida e se manifesta de forma muito visível no ambiente escolar. Esquecimentos constantes, dificuldade em terminar tarefas, perda de materiais, procrastinação e desafios em gerenciar o tempo podem levar ao acúmulo de atividades e à sensação de fracasso frequente. Sem suporte adequado, muitos estudantes acabam acreditando que são “incapazes” ou “menos inteligentes”, quando na verdade precisam de ferramentas específicas para conseguir mostrar o próprio potencial.
Aplicativos como o FocuSunsa atuam como recursos de tecnologia assistiva: não substituem acompanhamento médico ou psicológico, mas podem organizar o dia a dia de forma mais amigável ao funcionamento do cérebro de quem tem TDAH. Ao transformar grandes demandas acadêmicas em pequenas metas, ao oferecer lembretes constantes e ao tornar o estudo mais visual e interativo, a ferramenta ajuda a reduzir o desgaste mental e permite que o estudante concentre energia na aprendizagem em si.
Outra vantagem está na autonomia. Em vez de depender constantemente de outras pessoas para lembrar tarefas, prazos e compromissos, o aluno passa a ter um “sistema externo de memória” sempre à mão. Isso contribui para a construção de senso de responsabilidade, mas sem reforçar culpas ou cobranças exageradas. A tecnologia torna-se uma aliada silenciosa, que guia, organiza e motiva.
Possibilidades de uso para professores e famílias
Embora o foco principal do FocuSunsa sejam os estudantes, a ferramenta abre espaço para aproximação entre escola, família e jovem com TDAH. Professores podem, por exemplo, sugerir que os alunos registrem no aplicativo trabalhos, provas e lembretes de leitura assim que uma tarefa é passada em aula. Dessa forma, diminuem-se as chances de que atividades sejam esquecidas ou deixadas para a última hora.
Famílias também podem ser orientadas a apoiar o uso do app, ajudando o estudante a configurar notificações em horários realistas, estabelecer metas que façam sentido para a rotina da casa e acompanhar, de maneira respeitosa, os relatórios de progresso. Em vez de cobranças genéricas, pais e responsáveis passam a ter dados concretos para conversar sobre o que funcionou bem em determinada semana e o que pode ser ajustado.
Cuidados com privacidade e uso saudável da tecnologia
Em iniciativas que envolvem jovens e ambientes digitais, torna-se essencial discutir privacidade, segurança de dados e uso equilibrado da tecnologia. Projetos como o FocuSunsa tendem a incluir, em suas etapas de amadurecimento, políticas claras de proteção de informações pessoais, mecanismos de autenticação seguros e transparência sobre quais dados são coletados e com qual finalidade.
Outro aspecto importante é evitar que o app se torne mais uma fonte de ansiedade. Por isso, a lógica da gamificação e dos relatórios de desempenho precisa ser construída sem comparações entre usuários e sem rankings que possam gerar competição tóxica. O foco é o progresso individual, o reforço positivo e o reconhecimento de pequenas vitórias, respeitando o ritmo próprio de cada estudante com TDAH.
Perspectivas futuras para o FocuSunsa e para a inclusão digital na educação
À medida que o projeto avança, uma das possibilidades é integrar o aplicativo a práticas pedagógicas inovadoras dentro das escolas, como salas de aula invertidas, trilhas de aprendizagem personalizadas e acompanhamento de metas individuais. Também se abre um campo para pesquisas mais amplas sobre o impacto de ferramentas digitais na permanência e no rendimento de estudantes com TDAH no sistema de ensino.
O desenvolvimento do FocuSunsa mostra como iniciativas de iniciação científica em escolas podem ir além de experiências teóricas e gerar soluções concretas para desafios reais. Ao unir conhecimento acadêmico, sensibilidade social e tecnologia, o grupo de estudantes do Colégio Marista Assunção não apenas propõe um aplicativo, mas reforça uma mensagem importante: com apoio adequado, ferramentas certas e compreensão, jovens com TDAH podem transformar sua relação com os estudos e se reconhecer como protagonistas de sua própria trajetória acadêmica.
